Se estudarmos as características do sistema nervoso na escala zoológica,
ficaremos surpresos com tantas similaridades. As semelhanças são
de tal ordem que grande parte da Neurociência foi desenvolvida à
custa de experiências conduzidas em três organismos: um verme
de 1mm de comprimento chamado C. elegans, na mosca que voa sobre as bananas
maduras (drosófila) e no rato.
Em muitos casos, as moléculas que agem como neurotransmissores,
as moléculas responsáveis pela arquitetura das sinapses
e as que controlam o desenvolvimento embrionário do sistema nervoso
são praticamente as mesmas no verme, na mosca e nos mamíferos.
As moléculas envolvidas e as propriedades elétricas dos
neurônios se acham conservadas na escala zoológica. Na verdade,
o que diferencia a capacidade computacional do sistema nervoso de duas
espécies é o número de neurônios e os detalhes
das conexões estabelecidas entre eles.
A incomparável habilidade cognitiva da espécie humana que
nos permite criar computadores e sinfonias é resultado da atividade
de 100 bilhões de neurônios conectados em circuitos de grande
plasticidade através de trilhões de sinapses encarregadas
de modular o fluxo de informações que por elas trafega.
Atividades mentais como memória, percepção de estímulos
e cognição, só encontram sentido quando interpretadas
à luz das propriedades das células nervosas, dos circuitos
e das áreas anatômicas do cérebro que os integram
em sistemas computacionais. O trânsito de íons e moléculas
pelos circuitos neuronais é essencial para a expressão do
mais reles ao mais nobre sentimento humano.
Entender os fenômenos mentais como conseqüência de eventos
físico-químicos é inaceitável para os que
imaginam a mente uma entidade puramente espiritual, como o fez Descartes
há 300 anos. Para os cientistas empenhados na criação
de modelos destinados a decifrar as bases moleculares da consciência,
porém, esse é o desafio mais maravilhoso que a biologia
enfrentará no século XXI.