Drauzio – Que risco correm os doadores vivos que se propõem doar parte do fígado para transplante?
T.Bacchella – Como dissemos, o transplante inter vivos foi idealizado inicialmente para os receptores pediátricos, por causa da escassez de doadores nos primeiros anos de vida. Gostaria de mencionar também que, no mundo, o primeiro transplante desse tipo foi feito pela equipe do Dr. Silvano Raia no Hospital das Clínicas de São Paulo, na década de 1980, mas a criança teve sobrevida curta.
O grau de complexidade dessa cirurgia varia bastante. Ela pode ser relativamente simples e de pouco risco para o doador adulto quando se utiliza um pequeno segmento – o segmento lateral esquerdo – de seu fígado para transplantá-lo em crianças menores. No entanto, a cirurgia torna-se muito mais complexa, se for necessário transplantar todo o lobo esquerdo ou todo lobo direito do fígado do doador adulto, porque o receptor tem tamanho maior.
Atualmente, o transplante inter vivos faz parte da rotina no tratamento das doenças hepáticas. No Japão, por exemplo, essa é praticamente a única técnica utilizada, porque, apesar de adotarem o conceito de morte encefálica, ele não é bem aceito pela sociedade.
Você me perguntou se existem riscos para o doador adulto. Principalmente para o doador adulto, os riscos existem e vão desde complicações simples, como infecção da ferida cirúrgica e demora para voltar ao trabalho, até o óbito.
No Brasil, fora do estado de São Paulo, foram registrados 4 ou 5 óbitos de doadores adultos. No Japão, o primeiro óbito ocorreu em 2005 e há referências a mortes dos doadores ocorridas nos Estados Unidos e na Europa. No cômputo geral, entretanto, o número de mortes gira em torno de 1%.
Drauzio – Esses doadores que morreram eram pessoas saudáveis?
T. Bacchella – Eram doadores saudáveis. Na verdade, o transplante inter vivos exige que seja retirada uma parte do fígado de pessoas perfeitamente sadias para doá-la a uma pessoa doente. Infelizmente, já foram registrados casos em que o doador teve de receber um transplante de fígado, porque o que lhe sobrou desse órgão era insuficiente para promover sua regeneração.
Hoje, porém, podemos contar com técnicas de imagem como a ressonância magnética e a tomografia computadorizada que permitem avaliar não só quanto do fígado do doador pode ser retirado, mas também avaliar o aspecto da glândula. Por exemplo, a infiltração de gordura pode representar risco maior para o receptor. Tudo isso ajuda a prevenir complicações para doadores e receptores.
Drauzio – O doador tem de ser histologicamente compatível com o receptor? Isso obriga que seja escolhido entre os familiares da pessoa doente?
T. Bacchella – Diferente dos transplantes de rim que exigem compatibilidade maior por HLA ou por prova cruzada, o transplante de fígado requer apenas a compatibilidade ABO do tipo sangüíneo, porque ele é um órgão de maior tolerância imunológica, ou seja, que se adapta mais facilmente ao novo receptor, apesar da agressão imunológica a que está exposto. Exceção feita aos irmãos univitelinos, isto é, aos gêmeos idênticos, está provado que não faz diferença o doador ser um parente próximo ou distante ou um cadáver.
A legislação brasileira permite a doação de órgãos entre familiares ou entre desconhecidos, que só pode ser feita com autorização judicial, e considera crime o comércio de órgãos no país.
Drauzio – O Brasil é o único país do mundo que adota critério cronológico, ou seja, a ordem de entrada dos candidatos na fila para o transplante de fígado. Parece que esse critério está para ser modificado. Quais são os inconvenientes que apresenta?
T. Bacchella – O critério cronológico adotado no Brasil faz com que o transplante seja realizado primeiro no doente que está mais tempo na fila. Entretanto, pacientes com doença hepática grave podem interferir nessa ordem de chamada, porque a pessoa morrerá se o fígado não for trocado. Por isso, passam a ter prioridade nos transplantes os casos de hepatite fulminante, em que a perspectiva de vida é muito curta.
É preciso dizer que, nos demais países do mundo, o critério cronológico serve eventualmente para desempate entre dois candidatos a transplante.
Quem cuida desses doentes, como o nosso grupo que tem 900 pessoas na lista de espera, vê jovens morrerem por falta de transplante, enquanto indivíduos que poderiam aguardar um ou dois anos na fila, recebem o transplante e correm risco desnecessário - o risco de mortalidade no pós-transplante imediato varia entre 15% e 25% - num momento em que ainda estavam bem. Por essa razão, os Estados Unidos adotaram o critério Meld, uma fórmula logarítmica objetiva que se baseia em três exames simples de laboratório na seleção dos doentes (essa fórmula é encontrada facilmente na Internet). Como os doentes com índice de Meld mais alto têm risco de morte em curto espaço de tempo, esses devem receber o transplante antes dos menos graves.
Drauzio – O critério Meld vai ser usado no Brasil?
T. Bacchella - O critério Meld foi desenvolvido nos Estados Unidos e está sendo adotado no mundo inteiro. Embora não seja o método ideal, é sério e tem-se mostrado eficaz na seleção dos candidatos a transplante. Deixar de respeitá-lo seria o mesmo que, no pronto-socorro, dar prioridade ao atendimento de um paciente com um corte na mão só porque ele chegou antes de um politraumatizado, vítima de um acidente de trânsito, com trauma cranioencefálico e afundamento de tórax. Ninguém discute que o mais grave tem de ser atendido antes.
Existem problemas para validar o método? Existem, mas eles devem ser contornados por uma auditoria oficial que deve prever punições para os casos de falha na elaboração do conceito. Segundo informações recentes, o Ministério da Saúde vai determinar sua aplicação em todo o território nacional provavelmente a partir de fevereiro de 2006.