a) seqüelas de lesões encefálicas
Drauzio – Em que situações clínicas a toxina botulínica é utilizada com a finalidade de provocar relaxamento muscular?
Lúcia Helena Granero – Ela é utilizada para tratar as seqüelas de lesões do sistema nervoso central. Atualmente, as mais comuns são as provocadas por lesões encefálicas adquiridas por causa de traumatismos de crânio e pelas provocadas por derrames cerebrais e paralisia cerebral.
Drauzio – Você poderia explicar o que é paralisia cerebral e quem pode ser acometido por ela?
Lúcia Helena Granero – A paralisia cerebral é provocada por uma lesão que ocorre numa fase em que o sistema nervoso central da criança ainda está em formação. Didaticamente, essa fase é dividida em fase pré-natal, perinatal e pós-natal, uma vez que a gestante pode ter algum tipo de intercorrência durante a gestação ou no momento do parto que vai acarretar a lesão cerebral, ou a lesão pode ocorrer depois do nascimento. Por exemplo, partos complicados ou má assistência na hora do nascimento podem provocar falta de oxigenação (anóxia) do feto, o que lhe traz sofrimento e pode ser causa de lesão cerebral. Depois do nascimento, meningite, traumas, crises convulsivas e certas doenças genéticas só diagnosticadas após o parto são outras causas de lesões cerebrais responsáveis por distúrbios do movimento e do tônus muscular, que deixam a criança rígida.
Drauzio – Além desses, que outros problemas podem provocar lesões que afetam a musculatura e provocam contrações?
Lúcia Helena Granero – Lesões medulares por fratura, acidentes - motociclísticos, automobolísticos ou por arma de fogo – e doenças degenerativas, como a esclerose múltipla, podem provocar rigidez muscular e o tratamento feito com toxina botulínica traz benefícios para o paciente. Nesses casos, é preciso avaliar o padrão de rigidez que está interferindo com a qualidade de movimento ou com a postura e atuar sobre esses músculos.
b) esclerose múltipla
Drauzio – A esclerose múltipla é uma doença em que o sistema imunológico ataca a bainha de mielina que envolve os nervos e isso altera a condução do estímulo nervoso do nervo para o músculo. Essa doença evolui em surtos, de forma geralmente lenta. Em que fase da doença é indicada a toxina botulínica?
Lúcia Helena Granero – A indicação depende mais do quadro motor do que da fase da doença em que o paciente está. Em geral, quem encaminha esse paciente para o fisiatra é o neurologista, dizendo: ”Tentei tratar a rigidez, a espasticidade, com medicação oral, sem sucesso. Talvez um tratamento local com toxina botulínica consiga promover o relaxamento muscular desejado”.
Portanto, a fase da doença não tem relação direta com a utilização dessa toxina. Se o paciente tem surtos repetidos e diminuição progressiva da qualidade de movimentos e da independência pessoal porque a rigidez está se instalando, o uso da toxina botulínica pode prevenir deformidades ou outras complicações.
c) mal de Parkinson
Drauzio – E no mal de Parkinson, doença que provoca o clássico tremor de extremidades?
Lúcia Helena Granero – A doença de Parkinson vem sendo estudada para avaliar o real benefício que a toxina botulínica possa representar. No entanto, alguns trabalhos que temos desenvolvido mostram que esses benefícios existem do ponto de vista funcional, desde que o quadro seja bem avaliado. Às vezes, o parkinsoniano relata dificuldade em locomover-se, em trocar o passo e o exame precisa ser minucioso para descobrir o que está interferindo nessas ações a fim de atuar exatamente em cima dos músculos comprometidos.
Embora a doença de Parkinson ainda não seja uma indicação clássica, o tema está sendo pesquisado, pois a toxina botulínica tem-se mostrado eficiente no tratamento de muitas patologias diferentes.
d) tiques nervosos
Drauzio – Você mencionou rapidamente os tiques nervosos. Quais deles podem ser tratados com toxina botulínica?
Lúcia Helena Granero – Muitos pacientes têm tiques, isto é, espasmos musculares faciais basicamente na região dos olhos (piscamentos) ou da boca (repuxamentos). Do ponto de vista medicamentoso e psicoterapêutico, isso é muito difícil de ser tratado. Como a toxina botulínica enfraquece a musculatura, os tiques são atenuados.
Drauzio – Relaxando os músculos, ela não provoca assimetria entre as duas metades do rosto?
Lúcia Helena Granero – É preciso analisar muito bem o caso para isolar os grupos de músculos que estão atuando no careteamento e lembrar que o lado com espasmos está com hiperatividade. O objetivo é diminuir essa atividade aproximando-a do nível da outra hemiface. Como as doses são bem estudadas, a assimetria não se mostra importante e o resultado é bem próximo do que se considera bom.
e) cefaléias
Drauzio – No caso das cefaléias, em que circunstâncias é indicada a toxina botulínica?
Lúcia Helena Granero – A toxina presta-se para o tratamento das cefaléias tensionais, relacionadas com o estado de tensão e sobrecarga, e das cervicogênicas, resultantes de contratura na região cervical. De tratamento difícil, a profilaxia que se fazia antes deixava o paciente bem por uns tempos, mas depois surgiam crises intensas. O uso da toxina botulínica, nesses casos, traz melhores resultados do que o tratamento medicamentoso e prolonga o espaço entre as crises.
Drauzio – As cefaléias cervicogênicas não respondem aos analgésicos comuns, mas, em geral, respondem aos antiinflamatórios. Resultantes da contração involuntária da musculatura cervical, elas exigem diagnóstico bastante preciso para que a toxina possa ser usada.
Lúcia Helena Granero – É verdade. À semelhança de qualquer outra terapêutica, a boa indicação garante parte do sucesso do tratamento com a toxina botulínica.
f) hiperidrose
Drauzio – A toxina botulínica também pode ajudar pessoas com hiperidrose, isto é, portadoras de sudorese profusa nas mãos, axilas etc.?
Lúcia Helena Granero – Não atuo exatamente nessa área, mas os dermatologistas têm-se referido aos bons resultados do tratamento com toxina botulínica nas hiperidroses axilares, palmares e plantares. A melhora é boa e perdura por tempo prolongado, em média 5 ou 6 meses.