Drauzio – Quais são as principais características da síndrome metabólica?
Marcello Bronstein – Quando foi descrita no final da década de 1980, a síndrome X tinha como base a intolerância à glicose e era característica de uma população com maior risco para doenças cardiovasculares e diabetes, não necessariamente diabetes estabelecido, mas uma condição prévia conhecida como resistência à ação da insulina.
Lembrando que, em jejum, a glicemia normal deve estar entre 70 e 100, na síndrome metabólica esses números oscilam entre 100 e 125. Além disso, duas horas depois de ter tomado glicose, se o resultado do exame estiver entre 140 e 200 será indicativo de que a pessoa também apresenta esse tipo de intolerância.
Portanto, a síndrome X caracteriza-se pela associação de fatores como intolerância à glicose, hipertensão arterial, distúrbios lipídicos, ou seja, distúrbios da gordura circulante, principalmente aumento do colesterol ruim (LDL) e dos triglicérides, obesidade, em particular a do tipo central, que dá ao corpo o formato semelhante ao da maçã.
Drauzio – Como se constata a existência desse tipo de obesidade?
Marcello Bronstein – Há três formas para determinar a existência de obesidade central ou periférica. Primeira: calcular o índice de massa corpórea (IMC). Para tanto, é preciso dividir o peso pela altura ao quadrado. Se o resultado obtido for superior a 30, a pessoa é considerada obesa. Outra forma é medir a circunferência abdominal (em homens, o valor normal vai até 102 e, em mulheres, até 88cm) e a terceira, estabelecer uma relação entre as medidas da cintura e do quadril. Para tanto, divide-se a circunferência da cintura na altura do umbigo pela circunferência do quadril na porção mais proeminente das nádegas, na altura do trocanter, que se localiza junto à extremidade superior do fêmur. O resultado obtido não deve ultrapassar 0,9 no homem, e 0,85 na mulher.
Atualmente, o que mais se tem usado como critério de identificação da síndrome metabólica é a medida de circunferência abdominal, porque está correlacionada com a obesidade visceral. Isso significa que a gordura não é apenas subcutânea, isto é, que não está localizada apenas debaixo da pele, mas também entre as vísceras e os intestinos. A gordura visceral é a grande vilã dessa síndrome.
Drauzio – Além da pressão arterial elevada, das alterações da glicemia que não chegam a caracterizar diabetes, da gordura abdominal e da alteração dos lípides, como colesterol e triglicérides, que outros fatores de risco devem ser mencionados?
Marcello Bronstein – A síndrome metabólica engloba outros fatores de risco como ácido úrico elevado e microalbuminúria, ou seja, a eliminação de proteína pela urina, em quantidade pequena, mas significativa. Devem ser mencionados, ainda, os fatores pró-trombóticos que favorecem a coagulação do sangue e podem provocar entupimento nas artérias e processos inflamatórios. Hoje, sabemos que existem substâncias ligadas à inflamação da camada interna dos vasos sangüíneos, inflamação que é responsável pela prevalência de doenças cardiovasculares.
Drauzio – Quais são os exames que detectam esse processo inflamatório?
Marcello Bronstein – A maneira mais simples é considerar alguns marcadores no sangue, e são vários os que podem ser medidos laboratorialmente. Por exemplo, um deles é a proteína C-reativa (PCR), que é ultra-sensíve. Apesar de qualquer doença inflamatória poder aumentar a PCR, a tendência é valorizar esse dado como marcador da doença inflamatória vascular.