Dr. Vitor Manoel Silva dos Reis é médico dermatologista do Departamento de Dermatologia da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e membro permanente do Conselho Deliberativo da Sociedade Brasileira de Dermatologia.
Drauzio – A pediculose é uma infecção parasitária provocada pelos piolhos, que atingem crianças de todos os estratos sociais e não apenas as das comunidades carentes, onde as condições de higiene deixam a desejar. Por que não se consegue erradicar o piolho?
Vitor dos Reis – O piolho é um inseto que nos deixa perplexos pela capacidade de acabar com nossas armas para erradicá-lo. Existem tipos diferentes de piolhos que causam pediculose: o piolho da cabeça ( Pediculus humanus capitis ) e o piolho do corpo ( Pediculus humanus corporis ). O chato é um parasita semelhante aos piolhos da cabeça, que se desenvolve na região pubiana e causa uma infecção chamada ftiríase. De qualquer modo, o piolho que aparece com mais freqüência no nosso meio é o da cabeça. Não sei se pela moda dos cabelos compridos, se as escolas não tomam o cuidado necessário, se por causa da existência de tratamento para a pediculose, o fato é que ninguém mais corta os cabelos para acabar com a fonte de alimento desse tipo de piolhos que se nutre com o sangue do hospedeiro.
Drauzio – Qual o tratamento indicado para a pediculose?
Vitor dos Reis – O tratamento da pediculose requer sacrifício do doente e da mãe, porque é uma doença mais comum em crianças. O piolho deposita seus ovos na base do folículo piloso. Se os cabelos não forem cortados totalmente, o tratamento pode ser feito com produtos inseticidas, semelhantes aos usados para escabiose. Acontece que as lêndeas, os ovos dos piolhos, resistem à ação desses medicamentos.
Drauzio – As lêndeas são facilmente visíveis na cabeça da criança com pediculose.
Vitor dos Reis – As lêndeas são visíveis, especialmente se forem muitas como as que aparecem na imagem 3 . Embora sejam parecidas com descamações comuns na seborréia, estão grudadas no pêlo e não saem se forem puxadas. Na verdade, a lêndea é um ovo que o piolho depositou na raiz do cabelo e ainda não eclodiu. À medida que o cabelo cresce, ela vai se afastando do couro cabeludo.
Drauzio – Antigamente, as pessoas usavam pente fino para retirar as lêndeas.
Vitor dos Reis – O pente fino é usado ainda hoje, mas tem de ser passado todos os dias especialmente onde a pessoa tem mais lêndeas. Inclusive, os remédios para pediculose já trazem também um pente fino dentro de sua embalagem.
Drauzio – Quais os remédios indicados para tratar a pediculose?
Vitor dos Reis – São os mesmos inseticidas da escabiose, aplicados localmente na cabeça inteira (piretenos ou piretróides e GPHC). Os dermatologistas têm obtido também bons resultados com o uso de medicamentos por via oral. Às vezes, esses remédios conseguem fazer com que as lêndeas fiquem petrificadas e, aí, é só ir cortando o cabelo para retirar os ovos mortos que o problema estará resolvido.
Drauzio – Como é o esquema de tratamento da pediculose?
Vitor dos Reis – O remédio deve ficar na cabeça protegida por uma touca, durante algumas horas, por três ou cinco dias seguidos. A aplicação precisa ser repetida após uma semana para combater os novos piolhos que as lêndeas liberam ao eclodir.
Drauzio – Todas as lêndeas eclodem numa semana?
Vitor dos Reis – Basicamente numa semana, mas nem todas. Algumas demoram mais um pouco. No entanto, as que permanecem na parte mais comprida dos cabelos, em sua maioria, são lêndeas ocas, que as pessoas chamam de lêndeas mortas.
Drauzio – Havia o costume de passar querosene ou vinagre na cabeça das crianças com piolho. Quais os inconvenientes dessas aplicações?
Vitor dos Reis – Não conheço detalhes técnicos, mas, como querosene é uma substância tóxica que será absorvida pela pele, não deve ser aplicada. Antigamente, o vinagre era muito usado para fazer com que as lêndeas desgrudassem do pêlo. Por causa de seu cheiro forte e de existirem tratamentos mais eficazes, seu uso foi abandonado pela população.
Drauzio – O que fazer para evitar que uma criança pegue piolhos?
Vitor dos Reis – Nas escolas, quando surge um caso de pediculose do couro cabeludo, os professores devem notificar os pais de todas as crianças que convivem na mesma área para que sejam tratadas concomitantemente a fim de evitar novas infestações do piolho.