Dr. Cláudio Fernandes Corrêa é neurocirurgião, responsável pelo Grupo de Dor do Hospital 9 de Julho de São Paulo e presidente do Instituto Simbidor.
Drauzio – Em medicina, há uma série de distúrbios que provocam paralisia em alguns músculos da face. Exemplo típico é o que chamamos de desvio de rima. A pessoa fica com a boca torta. Esses quadros podem ser confundidos com neuralgia do trigêmeo?
Cláudio Corrêa – O nervo responsável pela mímica da face, aquele que a pessoa usa para sorrir, falar e manter conservada a simetria, é o nervo facial, o sétimo nervo craniano. O trigêmeo é o quinto nervo e está essencialmente ligado à sensibilidade da face. É verdade que o ramo mandibular possui uma porção motora responsável pela enervação do músculo masseter da mastigação que recebe suprimento nervoso motor e não sensitivo do nervo trigêmeo. Por isso, lesão no nervo trigêmeo pode provocar fraqueza na mastigação, mas não paralisia facial. Paralisia facial envolve outro nervo craniano, o nervo facial.
Nas neuralgias do trigêmeo, durante um ou dois meses, a pessoa pode apresentar certa fraqueza para mastigar alimentos duros, um pedaço de carne, uma castanha, mas a mímica da face é preservada.
No entanto, quando o problema está associado a alterações de outros nervos cranianos - um tumor que envolva o nervo trigêmeo e o facial, por exemplo – além de dor, o paciente pode apresentar desvio da rima bucal, comprometimento da motilidade do olho e paralisia da face. Nesse caso, o diagnóstico inclui um conjunto de sinais e sintomas que não se restringem à neuralgia do trigêmeo.
Drauzio – Nas neuralgias do trigêmeo, não há nenhum sinal visível. Há só a sensação de dor lancinante?
Cláudio Corrêa – Pode ocorrer também hiperemia. Durante a crise, o rosto fica vermelho no lado afetado porque o nervo possui um componente sensitivo e um componente neurovegetativo relacionado com a vasodilatação.
Outro dado importante para diagnóstico é a neuralgia do trigêmeo nunca ser uma dor bilateral. Numa fase da vida, ela pode atingir um lado, depois passar para o outro, mas nunca se manifesta nos dois ao mesmo tempo. Às vezes, nos casos de esclerose múltipla, tratamos de um lado durante anos e depois o paciente apresenta a doença no outro lado da face.
Uma crise dos dois lados é considerada uma raridade, uma curiosidade na medicina. Ao longo de minha vida profissional, tive a oportunidade de encontrar apenas dois casos de neuralgia bilateral concomitante.