Drauzio – O medo das seqüelas apavora todas as pessoas que têm uma criança com meningite. Elas realmente ocorrem?
Esper Kallás – As seqüelas das meningites bacterianas podem ocorrer e o risco é proporcional ao tempo que se demora para fazer o diagnóstico e instituir o tratamento.
A meningite provoca uma inflamação das membranas que estão em volta do cérebro. Se nada for feito, há um acúmulo de pus que não tem por onde escapar e a formação de abscessos que afetam partes nobres do cérebro ou alguns nervos. Essas lesões neurológicas são irreversíveis. Por isso, quando a doença demora a ser diagnosticada e tratada pode provocar seqüelas como surdez, alterações de percepção e movimento ou outras ainda mais graves.
Drauzio – Você falou que o surto de meningite de 1972/1974 foi o pior do mundo. Por que aconteceu isso no Brasil?
Esper Kallás – Havia uma epidemia provocada por um tipo de meningococo quando surgiu um outro, o meningococo do soro-grupo A, que praticamente não se encontra no Brasil, e que provocou uma epidemia explosiva.
As estatísticas indicam que a cada 100.00 habitantes, 250 tiveram a doença. Quem viveu essa experiência diz que havia hospitais inteiros que só recebiam casos de meningite. A infecção era tão comum que todas as pessoas com febre e dor de cabeça faziam exame do líquido da espinha.
Nessa época, eu era criança e morava no interior de Minas Gerais. Meu pai ficou sabendo que na cidade vizinha iria chegar a vacina, pegou a criançada, enfiou no carro e para lá se dirigiu. No caminho, encontramos caminhões cheios de gente que também ia atrás da vacina. O pânico, aliás justificável, era tanto que as pessoas se dispunham a viajar centenas de quilômetros só para serem vacinadas.
Essa epidemia impressionante foi desaparecendo. Alguns acreditam que pela intervenção da vacina, mas o desaparecimento foi tão rápido que aparentemente ela se esgotou.
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Agentes infecciosos da meningite
Drauzio – Quais tipos de germes provocam a meningite?
Esper Kallás – Teoricamente, a maioria de germes que causa infecções nas pessoas pode causar meningite. Um exemplo é o pneumococo, germe da pneumonia, que também pode ser agente de meningite.
No entanto, entre todos, se destacam dois grupos principais: o das bactérias e o dos vírus, germes muito menores do que as bactérias e que, em geral, provocam um quadro mais leve da doença.
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Sinais de alerta
Drauzio – Como os pais podem reconhecer a meningite nos filhos e o que devem fazer nessas circunstâncias?
Esper Kallás – Toda a vez que a criança, especialmente se for muito pequena, ficar muito mole, caída, pouco responsiva, irritadiça, com febre e se queixar de dor de cabeça é preciso suspeitar de que possa ser um quadro de meningite.
Drauzio – Dor de cabeça em criança tem sempre que valorizar.
Esper Kallás – Tem que valorizar. Se ela vomita, vai ficando mais prostrada e apresenta dificuldade para mexer a cabeça porque a nuca está mais rígida e dolorida, é preciso procurar um médico para obter um diagnóstico e começar o tratamento o mais depressa possível.
Drauzio – O atendimento rápido e a instituição do tratamento logo que os primeiros sintomas da doença se manifestam, em geral, asseguram boa evolução do caso.
Esper Kallás – A maioria das infecções por meningococo, em geral as mais graves, se tratada precocemente, costuma evoluir bem. As pessoas se curam e não ficam com seqüelas.
Site:
www.cve.saude.sp.gov.br
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Meningite viral
Drauzio – Como é a evolução da meningite viral?
Esper Kallás – O quadro das meningites virais é mais leve, mais brando. Os sintomas se assemelham aos da gripe e resfriados. A doença acomete principalmente as crianças, que ficam um pouco amolecidas e irritadas, têm febre e se queixam de dor de cabeça. No exame clínico, percebe-se que a nuca está um pouco rígida e que, quando se tenta dobrá-la, a reação é de dor. Uma vez que os exames tenham comprovado que se trata de meningite viral, a conduta é esperar que o caso se resolva sozinho como se faz com os resfriados.
A grande diferença entre a meningite bacteriana e viral está nesse detalhe. A maioria das meningites virais é mais benigna e evolui sem tratamento. Já as causadas por bactérias podem ser graves e devem ser tratadas imediatamente com antibióticos.
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Meningite bacteriana
Drauzio – Quando se fala em meningite, as pessoas imediatamente pensam numa doença infecciosa, muito grave e que pode deixar seqüelas. Como é a evolução da meningite bacteriana?
Esper Kallás – Essa fama terrível da doença se deve a um tipo específico de meningite provocado por uma bactéria chamada meningococo. No Brasil, ela ganhou notoriedade porque, entre 1972 e 1974, ocorreu em São Paulo a maior epidemia de meningite meningocócica de que se tem notícia no mundo.
O meningococo é transmitido pelas vias respiratórias, quer dizer, o convívio íntimo entre as pessoas favorece a transmissão da bactéria, que passa do nariz para o sangue, é levada para o cérebro onde estão as meninges e provoca uma infecção. Num curto espaço de tempo, aparecem sintomas como febre alta, mal-estar, vômitos, dor de cabeça e no pescoço, dificuldade para encostar o queixo no peito e, às vezes, manchas vermelhas pelo corpo, sinal de que a infecção está se alastrando rapidamente.
Associada à infecção por outros tipos de bactéria, a meningite por meningococo pode ser fatal em algumas horas. Felizmente, uma minoria de casos evolui com essa gravidade. Nos outros, a evolução é mais lenta, o que permite identificar a doença e introduzir sem demora o tratamento.
Drauzio - Só o meningococo pode provocar um quadro como esse?
Esper Kallás – Não. Também o pneumococo, bactéria que causa pneumonia, e o hemófilo. As mães já devem ter ouvido falar deste último porque há vacinas contra ele.
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Diagnóstico e tratamento
Drauzio – Às vezes, o tratamento tem de ser mais agressivo e exige internação hospitalar.
Esper Kallás - Quanto mais rápido o tratamento começar, menor a possibilidade de o quadro evoluir mal. Por isso, feito o diagnóstico de meningite, providencia-se imediatamente o exame do líquido da espinha (líquor ou líquido cefalorraquidiano) para saber o tipo de agente infeccioso envolvido. Se for uma bactéria, o antibiótico precisa ser introduzido sem perda de tempo. Se for um vírus, bastam os cuidados prescritos para as viroses em geral. O paciente pode voltar para casa, pois em um ou dois dias o problema estará provavelmente resolvido.
No entanto, se não houver indicação segura do agente infeccioso que provocou a doença, introduz-se imediatamente o antibiótico. Na dúvida, sempre pró-réu.
Drauzio – Quando você usa a expressão na dúvida, pró-réu, quer dizer que a pessoa deve tomar antibiótico enquanto espera o resultado do exame de líquor?
Esper Kallás – Se o exame vai demorar, somos obrigados a prescrever antibiótico antes de saírem os resultados. Criança com meningite não pode esperar seis horas sem medicamento para fazer o exame ou receber o resultado, porque meningite bacteriana grave pode matar em seis horas.
O principal indício de que o quadro não está evoluindo bem é a criança ficar largada, muito caída, e aparecerem manchas vermelhas em seu corpo. É uma manchinha no rosto, debaixo da pálpebra, às vezes uns pontinhos vermelhos na conjuntiva, meia hora depois uma na mão e outra no joelho. Esses sinais caracterizam uma emergência médica que requer atendimento o mais rápido possível.
Drauzio – O que expressam essas manchinhas pelo corpo nos casos de meningite?
Esper Kallás – Elas são expressão de que há grande quantidade de bactérias circulando pelo sangue. Em medicina, isso se chama septicemia ou, de acordo com a terminologia técnica, sepse. As manchas vermelhas indicam que, em vez de a bactéria concentrar-se no cérebro ou na coluna, prefere circular mais rápido e causar uma infecção generalizada, às vezes, antes mesmo de instalar-se nas meninges.
A septicemia ou sepse é muito grave porque faz a pressão sangüínea cair rapidamente e a pessoa entra em choque. Nesse caso, mesmo nos melhores centros médicos do mundo, o índice de mortalidade se aproxima de 30%. Já nos casos em que a meningite é isolada, quer dizer, a criança não chega a ter essas manchas, mas apresenta os outros sintomas, a mortalidade é bem menor. Parece que há tempo para os profissionais de saúde instituírem o tratamento com antibióticos, líquidos, etc., e a criança tem mais chance de recuperar-se.
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Diferença entre as virais e as bacterianas
Drauzio – Existem dois grandes grupos de meningite: as bacterianas capazes de produzir quadros gravíssimos e as virais, que têm apresentação benigna e evoluem independentemente do tratamento para a regressão completa em poucos dias. Como se estabelece a diferença entre as duas?
Esper Kallás – A diferença só pode ser estabelecida por um médico através de alguns exames especiais. O principal é a análise do líquido da espinha colhido na região lombar (na parte inferior da coluna) ou na nuca. A presença de pus nesse material normalmente cristalino indica infecção por bactéria, e a meningite (também chamada de purulenta por isso) exige tratamento agressivo.
Drauzio – O que dá a certeza do diagnóstico é o exame do líquor. Muitas mães têm medo desse exame. Ficam impressionadas com a necessidade de introduzir uma agulha na espinha da criança.
Esper Kallás – Esse exame é absolutamente necessário e profissionais com experiência o realizam como se estivessem tirando uma amostra de sangue.
Drauzio – Vamos nos ater um pouco mais nas meningites bacterianas. A pessoa adquire a bactéria em geral pelas vias aéreas superiores. Mucosa nasal, amídalas, faringe. Na maioria das vezes, ela se assesta nesses órgãos e provoca uma infecção que é curada. Por que há casos em que ela se instala exatamente nas meninges?
Esper Kallás – Ainda está em estudo, mas parece que as três principais bactérias que causam meningite - meningococos, pneumococos e hemófilos – conseguem romper a divisão entre o aparelho respiratório e o sangue e têm a capacidade de alcançar o sistema nervoso e nele se instalar. Pode-se dizer, então, que elas têm afinidade pelo sistema nervoso.
Vale lembrar que, no dia-a-dia, entramos em contato com uma infinidade de bactérias, mas pouquíssimas com a propriedade marcante de migrar para o cérebro e causar meningite. Por isso, a maioria das pessoas não desenvolve a doença. Um caso, porém, de meningite meningocócica numa criança justifica a prescrição de alguns medicamentos para todas as pessoas que morem na mesma casa a fim de erradicar as bactérias que estejam eventualmente em sua respiração, já que as da meningite gostam de se alojar no trato respiratório.
Drauzio – Os contactuantes devem ser medicados tenham sintomas ou não?
Esper Kallás – Dependendo do tipo de meningite, sim. No caso de meningite causada por meningococo, uma doença bastante grave, é preciso assumir que quem convive intimamente com o paciente pode ter adquirido a bactéria e por isso deve ser medicado.
Drauzio – Quando aparece um quadro de meningite numa escola, as mães ficam muito preocupadas e acham que as aulas deveriam ser suspensas.
Esper Kallás – Tudo depende do tipo de meningite. A meningite por meningococo, às vezes, exige erradicação em todas as crianças que conviveram com o doente. Já a meningite por pneumococo, por exemplo, não requer erradicação.
As regras variam muito, mas permanece o mito de que um caso de meningite num aluno requer que se suspendam as aulas e se feche a escola. Não é essa a melhor conduta a adotar.
O Estado de São Paulo possui um sistema de vigilância de casos de meningite bastante eficiente e um sistema de notificação bem montado.Todo caso de meningite, qualquer que seja sua causa, é de notificação compulsória, ou seja, o profissional ou a unidade de saúde que identificarem um caso da doença são obrigados a mandar uma ficha para o Centro de Vigilância Epidemiológica Estadual.
Drauzio - Como funciona esse serviço?
Esper Kallás - No site do CVE - www.cve.saude.sp.gov.br - podem ser obtidas as informações dos principais agravos de doenças transmissíveis em São Paulo, mês a mês, ano a ano.
Se houver grande aumento no número de casos em determinado mês que caracterize uma situação de epidemia, o serviço está preparado para instituir medidas mais drásticas, inclusive fechar as escolas por alguns dias. Essas situações de exceção quem identifica é o CVE. Medidas desproporcionais à gravidade da situação podem trazer enormes transtornos sem nada que os justifique.
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Vacina contra meningite
Drauzio – Quando se fala sobre vacinas contra meningite, estamos nos referindo apenas às meningites bacterianas?
Esper Kallás – Essa é uma pergunta muito importante. Vamos destacar outra vez as meningites bacterianas causadas pelo meningococo, pelo pneumococo e pelos hemófilos que podem provocar quadros graves e deixar seqüelas, como surdez em um ou nos dois ouvidos porque a infecção afeta os nervos auditivos.
Para a meningite por hemófilos, que ocorre em crianças até por volta dos 5 anos, existe uma vacina que já faz parte do calendário de vacinação e é administrada aos dois, quatro e seis meses de vida, sendo feitas depois as doses de reforço.
Drauzio – Essa vacina não protege apenas contra a meningite, protege contra outras doenças também…
Esper Kallás – É verdade, porque essa bactéria, às vezes, causa sinusite e otite nas crianças. Muito bem. Segundo os dados divulgados pela Secretaria de Saúde, essa vacina está reduzindo drasticamente o número de casos de meningite causada por hemófilos, pois está sendo ministrada na maioria das crianças uma vez que faz parte do programa oficial de vacinação.
A vacina contra a meningite por pneumococo também existe, mas enfrenta um problema logístico. Ela foi lançada em países europeus e nos Estados Unidos e adaptada para o tipo de bactéria que existe nesses lugares. No Brasil, o pneumococo é um pouco diferente e, embora sejam necessárias algumas adaptações, a prevenção que oferece é boa.
Quanto à vacina contra meningite por meningococo, a problemática é outra. Existem vários grupos dessa bactéria. Para um deles há uma vacina lançada recentemente que previne quase 100% dos casos. Mas há outros dois que não respondem da mesma maneira. A proteção é bem menor e funciona mais tarde, quando a criança está mais velha, ou seja, quando os casos de meningite são menos comuns.
Drauzio – Na verdade, a pessoa precisa ser protegida contra as três bactérias que provocam meningite o que não é uma coisa simples de fazer.
Esper Kallás – Não é. Contra a doença provocada especialmente pelo meningococo é preciso pedir ajuda para a unidade de saúde que oferece vacinas, ou para o médico e clínicas particulares.
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Pico de incidência
Drauzio – Por que as crianças são mais susceptíveis à meningite?
Esper Kallás – A incidência da meningite tem um pico na primeira infância. Quanto mais jovem a criança for, maior a possibilidade de ficar doente. À medida que vai crescendo, o risco diminui e reaparece com o envelhecimento.
A meningite é, portanto, uma doença que se concentra nos dois extremos da vida, quando a defesa do organismo está um pouco imatura ou quando começa a enfraquecer por causa da idade.
No entanto, como ocorre preferencialmente em crianças, as ações de identificação de casos de meningite, de instrução dos sintomas e preparação da rede de médicos e hospitais objetivam instruir a respeito da identificação de casos de meningite nessa faixa etária.
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Seqüelas
Drauzio – O medo das seqüelas apavora todas as pessoas que têm uma criança com meningite. Elas realmente ocorrem?
Esper Kallás – As seqüelas das meningites bacterianas podem ocorrer e o risco é proporcional ao tempo que se demora para fazer o diagnóstico e instituir o tratamento.
A meningite provoca uma inflamação das membranas que estão em volta do cérebro. Se nada for feito, há um acúmulo de pus que não tem por onde escapar e a formação de abscessos que afetam partes nobres do cérebro ou alguns nervos. Essas lesões neurológicas são irreversíveis. Por isso, quando a doença demora a ser diagnosticada e tratada pode provocar seqüelas como surdez, alterações de percepção e movimento ou outras ainda mais graves.
Drauzio – Você falou que o surto de meningite de 1972/1974 foi o pior do mundo. Por que aconteceu isso no Brasil?
Esper Kallás – Havia uma epidemia provocada por um tipo de meningococo quando surgiu um outro, o meningococo do soro-grupo A, que praticamente não se encontra no Brasil, e que provocou uma epidemia explosiva.
As estatísticas indicam que a cada 100.00 habitantes, 250 tiveram a doença. Quem viveu essa experiência diz que havia hospitais inteiros que só recebiam casos de meningite. A infecção era tão comum que todas as pessoas com febre e dor de cabeça faziam exame do líquido da espinha.
Nessa época, eu era criança e morava no interior de Minas Gerais. Meu pai ficou sabendo que na cidade vizinha iria chegar a vacina, pegou a criançada, enfiou no carro e para lá se dirigiu. No caminho, encontramos caminhões cheios de gente que também ia atrás da vacina. O pânico, aliás justificável, era tanto que as pessoas se dispunham a viajar centenas de quilômetros só para serem vacinadas.
Essa epidemia impressionante foi desaparecendo. Alguns acreditam que pela intervenção da vacina, mas o desaparecimento foi tão rápido que aparentemente ela se esgotou.