Drauzio – Existem dois grandes grupos de meningite: as bacterianas capazes de produzir quadros gravíssimos e as virais, que têm apresentação benigna e evoluem independentemente do tratamento para a regressão completa em poucos dias. Como se estabelece a diferença entre as duas?
Esper Kallás – A diferença só pode ser estabelecida por um médico através de alguns exames especiais. O principal é a análise do líquido da espinha colhido na região lombar (na parte inferior da coluna) ou na nuca. A presença de pus nesse material normalmente cristalino indica infecção por bactéria, e a meningite (também chamada de purulenta por isso) exige tratamento agressivo.
Drauzio – O que dá a certeza do diagnóstico é o exame do líquor. Muitas mães têm medo desse exame. Ficam impressionadas com a necessidade de introduzir uma agulha na espinha da criança.
Esper Kallás – Esse exame é absolutamente necessário e profissionais com experiência o realizam como se estivessem tirando uma amostra de sangue.
Drauzio – Vamos nos ater um pouco mais nas meningites bacterianas. A pessoa adquire a bactéria em geral pelas vias aéreas superiores. Mucosa nasal, amídalas, faringe. Na maioria das vezes, ela se assesta nesses órgãos e provoca uma infecção que é curada. Por que há casos em que ela se instala exatamente nas meninges?
Esper Kallás – Ainda está em estudo, mas parece que as três principais bactérias que causam meningite - meningococos, pneumococos e hemófilos – conseguem romper a divisão entre o aparelho respiratório e o sangue e têm a capacidade de alcançar o sistema nervoso e nele se instalar. Pode-se dizer, então, que elas têm afinidade pelo sistema nervoso.
Vale lembrar que, no dia-a-dia, entramos em contato com uma infinidade de bactérias, mas pouquíssimas com a propriedade marcante de migrar para o cérebro e causar meningite. Por isso, a maioria das pessoas não desenvolve a doença. Um caso, porém, de meningite meningocócica numa criança justifica a prescrição de alguns medicamentos para todas as pessoas que morem na mesma casa a fim de erradicar as bactérias que estejam eventualmente em sua respiração, já que as da meningite gostam de se alojar no trato respiratório.
Drauzio – Os contactuantes devem ser medicados tenham sintomas ou não?
Esper Kallás – Dependendo do tipo de meningite, sim. No caso de meningite causada por meningococo, uma doença bastante grave, é preciso assumir que quem convive intimamente com o paciente pode ter adquirido a bactéria e por isso deve ser medicado.
Drauzio – Quando aparece um quadro de meningite numa escola, as mães ficam muito preocupadas e acham que as aulas deveriam ser suspensas.
Esper Kallás – Tudo depende do tipo de meningite. A meningite por meningococo, às vezes, exige erradicação em todas as crianças que conviveram com o doente. Já a meningite por pneumococo, por exemplo, não requer erradicação.
As regras variam muito, mas permanece o mito de que um caso de meningite num aluno requer que se suspendam as aulas e se feche a escola. Não é essa a melhor conduta a adotar.
O Estado de São Paulo possui um sistema de vigilância de casos de meningite bastante eficiente e um sistema de notificação bem montado.Todo caso de meningite, qualquer que seja sua causa, é de notificação compulsória, ou seja, o profissional ou a unidade de saúde que identificarem um caso da doença são obrigados a mandar uma ficha para o Centro de Vigilância Epidemiológica Estadual.
Drauzio - Como funciona esse serviço?
Esper Kallás - No site do CVE - www.cve.saude.sp.gov.br - podem ser obtidas as informações dos principais agravos de doenças transmissíveis em São Paulo, mês a mês, ano a ano.
Se houver grande aumento no número de casos em determinado mês que caracterize uma situação de epidemia, o serviço está preparado para instituir medidas mais drásticas, inclusive fechar as escolas por alguns dias. Essas situações de exceção quem identifica é o CVE. Medidas desproporcionais à gravidade da situação podem trazer enormes transtornos sem nada que os justifique.