Drauzio – Você disse que um dos segredos para manter a lente lubrificada é
piscar. Isso basta?
Marcelo Cunha – Piscar desde que haja lágrimas. Esse é um problema que acomete as mulheres a partir dos 40 anos, principalmente aos 50 anos, e que vem junto com a menopausa. As alterações hormonais interferem também na produção de lágrimas e o olho fica seco. Em cidades como São Paulo, onde é alto o nível de poluição, o desconforto é grande, em especial, na área exposta da conjuntiva, porque as outras ficam protegidas pelas pálpebras inferior e superior.
Drauzio – O que merece atenção nas imagens13 e 14?
Marcelo Cunha – Existe um corante específico chamado rosa-bengala que se impregna na área de maior sofrimento. Nesse olho, ele destaca a região mais lesada: a área da córnea não tem células, como se houvesse uma descamação. A pálpebra constantemente piscando sobre esse machucado intensifica o problema e surge a sensação de areia nos olhos.
Esse é o terceiro sintoma dos olhos vermelhos. A alergia provoca coceira; vírus e bactérias provocam ardor e falta de lágrimas, a sensação de areia nos olhos. Essas informações são importantes para o diagnóstico.
Outra queixa importante em relação ao olho seco é que pela manhã os sintomas são mais intensos. Durante o dia, embora a produção de lágrimas seja pequena, as pessoas piscam mais o que serve de estímulo para aumentar essa produção.
Quando dormimos, os olhos ficam fechados, o estímulo desaparece e a
produção cai quase a zero. Então, as pessoas acordam de madrugada e sentem dor quando abrem os olhos porque eles estão completamente secos.
Para facilitar o diagnóstico, existem filtros (imagem 15) que, colocados com o olho anestesiado, servem para medir a produção de lágrimas num tempo previamente estipulado e, caso ela seja insuficiente, prescreve-se o uso de lubrificantes oculares. Hoje, há uma gama enorme desses produtos que são de ótima qualidade, mas permanecem nos olhos por muito pouco tempo. Dez ou doze minutos depois da aplicação, o colírio já foi absorvido. Prova disso é o gosto que a pessoa sente na garganta.
Drauzio – É um efeito muito passageiro, não é?
Marcelo Cunha – Dura pouco e ninguém consegue pingar colírio trinta vezes ao dia. Nesse caso, é necessário recorrer a outros tratamentos para que o colírio, ou a própria lágrima, permaneça mais tempo nos olhos. Um deles é um pequeno plugue, ou seja, um bastão que fecha o ponto lacrimal, a fim de impedir que as lágrimas escapem para as fossas nasais, o que deixa o olho mais lacrimejante (com mais lágrima ou mais colírio). (imagem 16)
Drauzio – Você poderia explicar o que é o ponto lacrimal?
Marcelo Cunha – As glândulas lacrimais localizam-se na parte superior dos olhos e secretam as lágrimas. Toda a vez que nós piscamos, um pouco de lágrima é distribuída e chega até o canto do olho onde existem dois orifícios minúsculos – um na pálpebra inferior e o outro na de cima - pelos quais a lágrima escorre para a garganta e as fossas nasais. Esses são os pontos lacrimais. O gosto que se sente depois de alguns segundos que pingamos colírio nos olhos é prova de que ele desceu para garganta.
Drauzio – Uma pessoa que coloque um bastão desses, quando chora, deve eliminar pelos olhos uma enormidade de lágrimas.
Marcelo Cunha - Isso não acontece. A pessoa produz poucas lágrimas em qualquer situação. Felizmente, o arsenal para tratamento de olho seco é enorme. Existem colírios, gel e pomadas que podem ser prescritos. Quando nenhum desses procedimentos funciona é que se recorre ao bastão no ponto lacrimal.
Por outro lado, é preciso mencionar que olho seco é também sintoma de algumas doenças sistêmicas, principalmente da artrite reumatóide. A síndrome de Sjögren, que é relativamente comum, provoca secura na boca e nos olhos e problemas de articulação.