Drauzio – O quadro de DPOC tem evolução progressiva. Como se identifica a doença e quais suas conseqüências?
Carlos Roberto Ribeiro de Carvalho – O quadro clássico de DPOC que acomete 80%, 90% dos pacientes com bronquite crônica manifesta-se principalmente por tosse e expectoração. É a história do fumante que acorda com um pigarrinho de manhã, tosse um pouco e elimina quantidade pequena de muco e catarro. No entanto, a produção dessas secreções vai aumentando progressivamente e os sintomas se agravam.
Quando predomina a desestruturação do alvéolo, típica do enfisema pulmonar, a pessoa se queixa de falta de ar progressiva e de cansaço, quando se submete a esforços. Os relatos são todos semelhantes: “Antes eu jogava dois sets de tênis. Depois passei a jogar um set e já ficava cansado. Por isso, deixei de jogar tênis e comecei a caminhar durante 30 minutos. Agora, me falta fôlego para dar duas voltas no quarteirão de casa”. A limitação que a doença impõe é progressiva e, nas fases mais avançadas, o paciente não consegue levantar da poltrona e caminhar até a mesa de refeições sem ficar ofegante.
Drauzio – Com que velocidade a doença progride desde os primeiros sintomas até a fase limitante?
Carlos Roberto Ribeiro de Carvalho – Isso depende da sensibilidade de cada um. Indivíduos com história familiar da doença têm evolução mais rápida. Normalmente, esses pacientes perdem, em média, de 60ml a 100ml da capacidade pulmonar durante um ano. É um índice elevado, em especial se considerarmos que, nos indivíduos sadios, a perda é de 20ml a 30ml ao longo da vida.
Em geral, a doença começa a manifestar-se depois dos 55 anos. Se a pessoa começou a fumar aos 15, 20 anos, depois de 35, 40 anos, vai ter de pagar a conta por ter fumado tanto tempo. Infelizmente, o cigarro não causa um mal perceptível nas primeiras tragadas; vai degenerando o pulmão devagarinho. Se fumar três maços por dia, então, o tempo de evolução da doença será mais curto.
Drauzio – Qual é a porcentagem dos casos de DPOC associados ao cigarro?
Carlos Roberto Ribeiro de Carvalho – Estudos epidemiológicos mostram que, dependendo da região, mas principalmente nas cidades industrializadas, essa porcentagem atinge 90%, 95%. Trabalhos realizados na Colômbia apontam um dado interessante. Na zona rural, 20% das mulheres que cozinhavam em fogão a lenha em ambientes fechados, mostraram-se suscetíveis ao desenvolvimento de enfisema pulmonar.
Drauzio – Qual é o peso da poluição ambiental das grandes cidades no aparecimento da DPOC?
Carlos Roberto Ribeiro de Carvalho – A poluição é um fator adjuvante, difícil de ser avaliado isoladamente. O envelhecimento normal do pulmão provoca, de certo modo, um tipo de enfisema, porque ao longo da vida os alvéolos perdem um pouco da elasticidade. Provavelmente, a poluição acelera esse processo, mas é difícil dizer em que medida. No outono-inverno, o ar seco favorece a concentração de poluentes e os episódios de complicações respiratórias são mais freqüentes. Portanto, nesse período, a degeneração deve ser mais rápida. De qualquer modo, estudos experimentais em animais deixam claro que a degeneração pulmonar aumenta com os poluentes.
Drauzio – Já que não podemos recuperar a parte do pulmão que foi destruída, como se pode ajudar o paciente que não agüenta subir um lance de escadas?
Carlos Roberto Ribeiro de Carvalho – É importante caracterizar a doença começando pelo levantamento do histórico do paciente. Se for portador de doença bronquítica, é possível intervir para controlar a inflamação. Já se a doença atingiu os alvéolos e provocou sua desestruturação, a lesão é definitiva e pouco se pode oferecer do ponto de vista farmacológico ou medicamentoso.
Há exames, como o de capacidade pulmonar e a tomografia computadorizada de alta resolução, que dão informações detalhadas dos alvéolos, dos bronquíolos e da região dos brônquios. Outro exame, a espirometria, com e sem o uso de broncodilatador, permite observar a responsividade do paciente. Se a reação for positiva, são indicados antiinflamatórios e broncodilatadores e, quando necessário, antibióticos. Atualmente, existem medicamentos por via inalatória que ajudam muito a controlar a dispnéia e diminuem a incidência de efeitos colaterais.
As doses podem ser medidas em microgramas, porque o remédio atua diretamente no pulmão. Antes, tinha de ser indicado um comprimido por via oral com miligramas da substância ativa que seria distribuída em todo o corpo e só parte dela alcançava os pulmões.