Drauzio – O que está por trás da doença de Parkinson que provoca esse cortejo de sintomas, como tremores, lentidão de movimentos e micrografia, por exemplo?
João Carlos Papaterra Limongi – Existem dentro do tronco encefálico, região posterior do cérebro, dois pequenos núcleos muito segmentados, do tamanho de um caroço de azeitona, chamados de substância negra. Há décadas se conhece essa substância, que contêm muita melanina - o mesmo pigmento que escurece a pele - mas não se sabia direito qual era sua função.
No começo do século XX, um cientista percebeu que nos pacientes com Parkinson a substância negra se encontrava atrófica. Ficava com pigmentação mais clara e esmaecida, pois perdia a cor natural, quase preta dada pela melanina. Pondo algumas dessas células no microscópio, pôde verificar que elas estavam passando por um processo de degeneração. Embora essa tenha sido a primeira observação científica sobre o mecanismo da doença de Parkinson, não se sabia ainda qual era a função dessas células. Foram necessários mais 40 anos para concluir que elas fabricam uma substância química que funciona como neurotransmissor, a dopamina.
Drauzio – Qual a importância desse neurotransmissor, a dopamina, na doença de Parkinson?
João Carlos Papaterra Limongi - Neurotransmissor é uma substância química responsável pela transmissão de sinais na cadeia de circuitos nervosos. A mensagem que cada célula passa para a seguinte depende de mecanismos neurotransmissores e de substâncias como a dopamina. A falta dessa substância nos parkinsonianos foi identificada por Arvid Carlsoon et al., que receberam o prêmio Nobel de Medicina em 2000. Essa descoberta deu início à fase bioquímica da doença de Parkinson.
Recompondo os passos, então, no começo do século XX foi feita a constatação anatômica de que nos pacientes com Parkinson a substância negra estava comprometida por falta de dopamina. Quarenta anos depois, descobriu-se que dois pequenos núcleos, um de cada lado da parte posterior do cérebro, têm papel fundamental na manutenção do circuito motor subcortical que controla uma série de atividades automáticas, enquanto o circuito motor cortical controla as atividades conscientes. Por exemplo, se quero pegar um lápis que está em cima da mesa, mando uma ordem consciente e realizo o que desejo utilizando o circuito motor cortical. Se quero conversar enquanto caminho sem prestar atenção na mudança de passos, digitar um texto sem ter de procurar cada letra isoladamente, dirigir um automóvel sem pensar em cada pisada na embreagem ou troca de marcha, dependo dos circuitos motores subcorticais.
No entanto, se faltar dopamina, a motricidade automática é interrompida e a pessoa tem grande dificuldade para realizar movimentos simultâneos. Não consegue andar e conversar ao mesmo tempo nem realizar um movimento com a mão direita e outro com a esquerda. Perdidos esses automatismos, para andar precisa pensar isoladamente em cada passo e, enquanto ocupa o cérebro com isso, não consegue fazer mais nada.
Portanto, um dos resultados clínicos dessa alteração bioquímica cerebral é a perda da capacidade de realizar movimentos automáticos.