Drauzio – O exemplo clássico do chagásico era da pessoa que havia adquirido a doença do barbeiro que vivia nas reentrâncias das paredes das casas de pau-a-pique e atacava geralmente à noite. Com a construção de casas de alvenaria, perderam esse esconderijo. Entretanto, hoje há casos de transmissão de doença de Chagas sem a participação direta do barbeiro. Foi você quem diagnosticou o primeiro desses casos. Como isso aconteceu?
Marcos Boulos – Há pouco mais de quinze anos, as duas únicas formas conhecidas de transmissão da doença eram pelo barbeiro e pela transfusão de sangue. Um dia, um médico da Paraíba com quadro febril prolongado e sem diagnóstico veio para São Paulo, e eu o internei na enfermaria de moléstias infecciosas do Hospital das Clínicas. Depois de algum tempo, e por mero acaso, um exame revelou a presença do Tripanosoma no sangue dele e vimos que se tratava de um quadro agudo de doença de Chagas. Como havia comentado que a esposa e o filho também tinham tido febre, mais do que depressa comunicamos o fato para a Fundação Nacional de Saúde, e os responsáveis pelo setor nos pediram que fôssemos a Catolé do Rocha, na Paraíba, para investigar o caso.
A colega encarregada de fazê-lo, localizou mais de dez pessoas portadoras de doença semelhante e que todas haviam participado de um churrasco oferecido numa fazenda das redondezas. Como só essas tinham apresentado os sintomas, certamente o problema não estava na carne servida. A suspeita voltou-se, então, para o caldo-de-cana que haviam tomado. Mas, como justificar a infecção pelo caldo-de-cana se nunca se tinha ouvido falar na transmissão oral do parasita da doença de Chagas? De qualquer forma, foram examinar o moedor antigo que havia na fazenda e que não era utilizado havia muito tempo. Para surpresa geral, ele estava cheio de ninhos de barbeiro, de triatomíneos, que foram moídos junto com a cana.
Esse foi o primeiro surto da doença diagnosticado por transmissão oral no mundo. Depois de alguns anos, não mais do que cinco, novo surto surgiu na Amazônia, mais especificamente em Santarém, no Pará, onde estávamos desenvolvendo um trabalho de campo. Nesse caso de transmissão oral, tiveram a doença pessoas que tomaram açaí moído.
Recentemente, dois casos de transmissão oral chamaram atenção: um, em Santa Catarina, com caldo-de-cana e o outro, no Amapá, com açaí. O curioso em Santa Catarina é que a transmissão ocorreu num lugar só Parece que, por causa da temporada de verão, os donos de quiosques da estrada armazenaram muita cana-de- açúcar. Foi nessa cana que os barbeiros infectados, provavelmente triatomíneos, proliferaram e moídos junto com ela contaminaram as pessoas que beberam o caldo.
Drauzio – Contra esse tipo de transmissão não há defesa?
Marcos Boulos – Não existe prevenção. Eu diria, entretanto, que se trata de um evento ocasional, extravagante, que não acontece de rotina. O cuidado que se pode ter é lavar ou descascar a cana antes da moagem. O barbeiro não penetra na cana e, provavelmente, será eliminado se tomarmos esses cuidados. A mesma coisa com o açaí, que deve ser lavado cuidadosamente antes do preparo.
Drauzio – Essa penetração do Tripanosoma pelo aparelho digestivo era completamente desconhecida.
Marcos Boulos – Ninguém acreditava que ela pudesse acontecer. Achava-se que o ácido clorídrico do suco gástrico acabaria com o parasita. Não se sabe ainda exatamente o que acontece. Talvez, a replicação maior do Tripanosoma seja facilitada pela rapidez e pela quantidade com que é ingerido ou, como defendem alguns colegas, essas frutas muito doces sirvam-lhe de caldo de cultura. O provável é que ocorra uma invasão ativa diretamente no sangue e o parasita não passe pelo estômago onde o meio ácido poderia destruí-lo.