Drauzio – Em termos gerais, como é realizada a cirurgia das coronárias?
Noedir Stolf – A cirurgia das coronárias consiste basicamente na utilização de enxertos que ignoram a obstrução e passam por cima dela para levar o sangue de um ponto sem comprometimento da artéria coronária para outro além, distal, oferecendo um circuito alternativo.
As primeiras cirurgias foram feitas com a artéria mamaria, mas a dificuldade de isolá-la naquela época levou os cirurgiões optarem por retirar da perna do paciente um segmento da veia safena. Como esse vaso foi utilizado durante muito tempo, os enxertos coronários são conhecidos popularmente como pontes de safena.
Drauzio – Por que a escolha pela artéria mamária?
Noedir Stolf – Para começar, o nome artéria mamária é absolutamente inadequado. O termo técnico reconhecido pela Nomina Anatomica é artéria torácica interna, porque ela se situa na parte interna do tórax. Décadas atrás, o fato de ser um vaso com parede mais delicada e calibre muito menor que o da veia safena desestimulou sua utilização.
Drauzio – Basicamente como é feita a cirurgia de ponte de safena?
Noedir Stolf – Deve-se a padronização da ponte de safena ao cirurgião argentino Dr. René Favaloro durante sua permanência na Cleveland Clinic. A técnica consiste em retirar da região anterior da perna ou da coxa uma parte da veia safena para fazer uma anastomose término-terminal, ou seja, para costurá-la na aorta a fim de que o sangue passe através do enxerto por cima da lesão e alcance a artéria coronária depois da área obstruída onde é feita a anastomose da porção distal da safena para obter a revascularização do miocárdio (imagem 2).
Drauzio – O que se entende por anastomose?
Noedir Stolf – Anastomose é a costura que se faz para unir um enxerto de mamária ou de safena na artéria coronária.
Drauzio – Como é feita a cirurgia de revascularização do miocárdio que utiliza a artéria torácica interna?
Noedir Stolf – A técnica é minimamente invasiva e dispensa o uso da circulação extracorpórea e a abertura do esterno. Com o coração batendo, isola-se a artéria torácica interna –que tem origem na artéria subclávia e continua presa ao sistema arterial, estabelecendo conexão com a artéria que vai para o braço (localização que torna desnecessária a ligação na aorta) - para fazer a anastomose adiante do ponto obstruído da artéria coronária. Para realizar as suturas com segurança, os cirurgiões usam lupas com sistema de magnificação de dois e meio, três e meio, quatro aumentos.
Drauzio – Você disse que o coração continua batendo durante a cirurgia?
Noedir Stolf- No início, colocávamos uma pinça na aorta para interromper a circulação e fazer a anastomose, enquanto o coração continuava batendo por algum tempo antes de começar a falhar por falta de sangue. Como esse tempo era relativamente curto, não causava dano nenhum ao paciente.
Mais tarde, para proteger o músculo cardíaco durante a cirurgia não só de pontes mamárias, mas durante as operações de válvulas também, passou-se a injetar uma solução cardioplégica que, como o nome diz, provoca paralisia do coração. Essa solução contém, entre outras substâncias, uma quantidade de potássio que faz o coração parar rapidamente e economiza suas reservas de energia. Outra vantagem é deixar o campo operatório cirúrgico em condições absolutamente ideais para a realização da anastomose, pois, além de parado, o coração está sem sangue porque a aorta foi pinçada.
Drauzio – Como a pessoa consegue sobreviver com o coração parado?
Noedir Stolf – Sobrevive porque a maior parte das substâncias que compõem a solução cardioplégica esfriam o coração e fazem o metabolismo cardíaco baixar muito. Por isso, no fim da cirurgia, quando a pinça que prende a aorta é aberta, o sangue volta a fluir e o coração a bater satisfatoriamente.
Drauzio – Quanto tempo o coração pode ficar parado nessas condições?
Noedir Stolf – O tempo pode ser bastante longo, mas a cada 20 minutos aplica-se novamente a solução que protege o coração.
Drauzio – Como se tornou possível realizar a cirurgia das coronárias sem circulação extracorpórea?
Noedir Stolf – A cirurgia das coronárias sem circulação extracorpórea foi idealizada por um cirurgião argentino e retomada no Brasil pelo Dr. Enio Buffolo, chefe de Cirurgia Cardiovascular da Escola Paulista de Medicina da UNIFESP. Apesar das controvérsias que o assunto despertou na época, o consenso hoje é que, sempre que possível, ela deva ser feita utilizando essa técnica.
Num primeiro momento, para realizá-la era necessário utilizar medicações que diminuíam os batimentos cardíacos, mas depois foram desenvolvidos dispositivos estabilizadores chamados octopus com sistema de pressão e de sucção que mantêm o coração batendo menos.
Drauzio – Quais as vantagens da cirurgia sem circulação extracorpórea?
Noedir Stolf – Provavelmente, para os doentes muito graves, a cirurgia sem circulação extracorpórea traga mais vantagens do que para uma pessoa sem muitas doenças associadas. De qualquer modo, atualmente, existe a tendência para optar pela cirurgia minimamente invasiva. Alguns cirurgiões fazem isso em quase 100% dos casos; outros realizam muito poucas cirurgias desse tipo e há aqueles que podem ser enquadrados numa faixa intermediaria, porque elegem a cirurgia sem circulação extracorpórea em 30%, 40% dos casos.
Drauzio – A circulação extracorpórea é uma técnica que consiste em retirar o sangue do corpo do paciente para passá-lo por um oxigenador que o bombeia de volta para o organismo do doente. O que justifica a tendência em evitá-la?
Noedir Stolf - Apesar do avanço extraordinário que tiveram as técnicas, os equipamentos e o conhecimento do processo, a circulação extracorpórea produz alguns efeitos deletérios indesejáveis para o paciente.
Drauzio – As cirurgias de pontes de safena são seguras atualmente?
Noedir Stolf – São. No entanto, é importante destacar que houve uma mudança grande no perfil dos candidatos à cirurgia coronariana provocada pelo aumento da perspectiva de vida da população. Atualmente, os pacientes são mais idosos e muitos já apresentaram problemas cardíacos que exigiram colocação de stents ou mesmo a realização de outra cirurgia cardíaca.
No início da década de 1970, quando começamos a trabalhar nessa área, receber um paciente com 65 anos era motivo de preocupação. Hoje, eles chegam com 70, 75 anos e já estamos pensando em como atender os que chegarão acima de 80 anos.
Apesar de os idosos, muitas vezes, serem portadores de quadros potencialmente mais graves, o índice de mortalidade é inferior a 3%. Se desse grupo excluirmos doentes com problemas pulmonares, que já tiveram derrames ou que fumaram a vida inteira, esse risco cai para menos de 1%.