Dr. André Malbergier é médico e professor do Departamento de Psiquiatria na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e coordenador do GREA, Grupo Interdisciplinar de Estudos de Álcool e Drogas.
Drauzio - Vamos falar sobre a compulsão por computadores e internet. O que fazer com as crianças que ficam enlouquecidas diante do computador por horas?
André Malbergier - Essa é uma área que vem chamando muito a atenção e acredito que chegou a hora de discutir o assunto aqui no Brasil. Só agora se está tentando estabelecer uma legislação que oriente o funcionamento das Lan Houses, casas que crianças, adolescentes e adultos podem freqüentar e onde jogam em rede, em geral, jogos de estratégia, de guerra. Em 2002, havia 500 casas dessas no Brasil. Em 2003, esse número gira em torno de três mil, ou seja, estão sendo abertas Lan Houses em cada esquina, não importa se em frente de escolas, faculdades ou próximas a lugares freqüentados por crianças sem regra nenhuma que norteie seu funcionamento. Existem até certos empreendimentos imobiliários que se valem da instalação desses equipamentos no condomínio como propaganda de venda e escolas que se gabam de oferecer um computador por criança. Na verdade, o estímulo para que as pessoas usem o computador é imenso e aí entra a questão da comorbidade. Ou seja, pessoas com alguma dificuldade de relacionamento social, fóbicas, tímidas demais ou com quadros depressivos, em contato com o computador, acabam abusando de seu uso o que acarreta prejuízos em sua vida social, financeira e até profissional. Muitas perdem o emprego porque se aproveitam de que o trabalho requer o uso do computador para despender tempo com jogos, e-mails, internet ou visitando sites de pornografia. De certa forma, o computador é uma experiência nova na vida de muitas pessoas. Para estabelecer alguns limites quanto ao uso desse equipamento, os pais precisam entender como ele funciona. Há uma charge que mostra bem a situação atual. Nela, o pai diz ao filho: me mostra como isso funciona, para eu dizer o que o que você pode fazer. Não são poucos os adultos que ainda estão engatinhando no manuseio do computador enquanto as crianças cada vez mais precocemente aprendem a manejá-lo.
Drauzio - Isso não é bom?
André Malbergier - É bom, desde que haja um filtro porque não se conhecem ainda as conseqüências dessa abertura total nem se sabe em que idade o contato com o computador deveria acontecer. Será que uma criança de três anos, que aprende a brincar com joguinhos, às vezes educativos, e passa a tarde toda no computador, porque os pais estão trabalhando e a empregada entretida com seus afazeres, não se tornará um usuário compulsivo? Hoje, o computador substituiu a televisão no papel de babá eletrônica. Só que a televisão não é interativa. Num determinado momento, o espectador se cansa e vai embora. O computador, ao contrário, é interativo e prende muito mais a atenção.