Dr. Orlando Parise Junior é médico-cirurgião do Hospital Sírio-Libanês de São Paulo. É especialista em lesões de cabeça e pescoço.
Drauzio – O ideal é fazer o diagnóstico precoce e retirar o tumor cirurgicamente respeitando uma margem de segurança de pelo menos 1cm além do limite da lesão. Quando o tumor já atingiu os linfonodos (gânglios) do pescoço, o que se pode fazer?
Orlando Parise – O tratamento do câncer de cabeça e pescoço mudou um pouco nos últimos anos. Até dez ou quinze anos atrás, a base do tratamento era a cirurgia e a radioterapia. Depois, surgiram alguns protocolos chamados de preservação do órgão, segundo os quais se procurava evitar a mutilação cirúrgica, ou melhor, procurava-se preservar praticamente tudo, embora os resultados fossem discutíveis. Por exemplo, do ponto de vista anatômico, o paciente permanecia com a laringe que, às vezes, deixava de funcionar depois do tratamento, e o que aparentemente era uma vantagem, transformava-se num problema sério porque, além de engasgar quando ia engolir, ele apresentava outros problemas ligados a um órgão que perdeu a funcionalidade.
A filosofia, hoje, é tentar ser conservador quando se trata de um tumor primário para evitar a mutilação funcional, mas a agressividade do tratamento deve ser maior se os gânglios do pescoço estiverem comprometidos.
Drauzio – E nos casos em que a cirurgia não é mais indicada porque o tumor é grande demais ou está localizado numa região que, ao ser removido, provocaria deformidades anatômicas graves?
Orlando Parise – Associar a quimioterapia com a radioterapia é uma solução para esses casos, pois torna possível certo controle da doença. Muitas vezes, o objetivo do tratamento não é mais a cura, mas manter a doença num grau de estabilidade para que o paciente tenha bom convívio social e não sinta dor.
Na verdade, são múltiplos os aspectos a considerar. Já que não se pode mais almejar a cura, é preciso que o tratamento proporcione conforto para que a pessoa consiga integrar-se à sociedade, consiga trabalhar e, em último caso, para que não se sinta abandonada nessa fase da doença.