Drauzio – Onde surgem, preferencialmente, os tumores de boca?
Orlando Parise – Geralmente, o sítio de eleição é a borda lateral da língua, mas as lesões podem aparecer em qualquer ponto da mucosa. Na boca, elas são mais visíveis e, por isso, o diagnóstico precoce é mais freqüente. A própria pessoa nota alguma coisa estranha ou o dentista observa a lesão num exame odontológico de rotina e encaminha o paciente para um especialista a fim de fazer uma biópsia. O problema é maior nas regiões posteriores das vias aéreas, ou seja, na nos seios piriformes e na laringe. Às vezes, quando surgem os sintomas, a lesão já está muito grande.
Drauzio – Na fase inicial, qual é a aparência das lesões de boca?
Orlando Parise – Elas podem surgir sob a forma de pequenas feridas brancas ou vermelhas ou de úlceras que são confundidas com aftas. É preciso dizer, porém, que parte dessas alterações não chega a virar câncer. Em cada cinco ou seis, uma se transforma num tumor maligno. Por isso, o diagnóstico precoce é tão importante.
Nos Estados Unidos, por exemplo, 90% das lesões são diagnosticadas na fase inicial, quando o tumor tem, no máximo, 2cm em seu eixo maior. No Brasil, a proporção é inversa: 85% dos tumores estão em estágio avançado no momento do diagnóstico. Sem falar no sofrimento dos pacientes, que deixam de beneficiar-se com um tratamento simples, uma pequena cirurgia de rápida recuperação, o diagnóstico tardio reverte num custo muito grande porque o requer, além de cirurgia mais invasiva, aplicações de rádio e quimioterapia.
Drauzio – Na imagem 1 ,aparece uma leucoplasia localizada no bordo lateral da língua. Quais as principais características dessa lesão?
Orlando Parise – É uma lesão esbranquiçada que sobressai ao plano da língua. Trata-se de uma lesão vegetante, pré-maligna, de tratamento bastante simples. Dependendo do paciente, é possível fazer a ressecção com anestesia local e não há seqüelas funcionais nem para a deglutição nem para a fala.
Drauzio – E a lesão que aparece na imagem 2?
Orlando Parise – Situada no terço médio da borda lateral da língua, é uma pequena úlcera rasa, mas com extremidade um pouquinho sobreelevada. Uma pessoa desavisada, às vezes, pode conviver muito tempo com uma lesão dessas na boca, vê-la crescer e só procurar auxílio médico quando ela está numa fase avançada e requer mutilação.
Drauzio – Nessa fase, a lesão dói como aconteceria se fosse uma afta?
Orlando Parise – O comportamento é muito variável. Às vezes dói; outras, não apresenta nenhum sintoma. Normalmente, a dor começa a ocorrer nos estadios mais avançados ou quando aparece uma infecção secundária provocada por alguma das inúmeras bactérias existentes na boca.
Drauzio – Essa lesão tumoral é muito semelhante a uma afta. Como o observador desavisado pode diferenciá-la da afta vulgar, muito comum na população?
Orlando Parise – Geralmente, as lesões iniciais do câncer têm a borda mais endurecida do que as aftas. Outro fator a considerar é o tempo. A afta costuma ser um processo autolimitado. Depois de uma ou duas semanas, deve cicatrizar. No caso de um câncer inicial de boca, a lesão só tende a crescer e, se não involuir com medidas terapêuticas convencionais, como a aplicação de um colutório, a pessoa deve procurar um médico para fazer biópsia.