Drauzio – Há famílias em que várias pessoas morreram de ataques cardíacos muito jovens e outras em que não aparecem problemas cardíacos. Existem fatores genéticos relacionados com a aterosclerose?
Protásio Lemos da Luz – Na maioria das vezes, a aterosclerose está relacionada com os fatores de risco tradicionais: pressão alta, diabetes, colesterol elevado, tabagismo, obesidade. Entretanto, em mais ou menos 40% dos casos de pessoas com a doença documentada não existem os fatores de risco clássicos. Existem os chamados novos fatores de risco, por exemplo, a hiper-homocisteinemia. Homocisteína é uma proteína encontrada normalmente no plasma que, em certas circunstâncias, por alterações metabólicas, pode aumentar muito. Esse aumento lesa os vasos e facilita o desenvolvimento da aterosclerose. Trata-se, porém, de uma patologia que ocorre num grupo relativamente pequeno de pessoas. Outro fator de risco a considerar é o nível reduzido de HDL, o colesterol protetor.
Somados todos esses casos, sobram mais ou menos 20% em que há predisposição genética, aliás, um assunto que ainda estamos aprendendo a conhecer. A idéia, hoje, é que existem vários genes que participam na regulação da função das células da parede da artéria e da formação da placa. É possível que alterações em alguns desses genes provoquem a doença apesar da ausência dos fatores de risco clássicos. Um exemplo disso é a hipercolesterolemia familiar. É raro, mas, por alteração genética, pessoas da mesma família têm o colesterol aumentado desde crianças.
Como você mencionou, algumas famílias apresentam a doença cardiovascular precocemente. Nessas, com certeza, existem traços genéticos que favorecem o desenvolvimento da doença aterosclerótica que ainda não são totalmente conhecidos. A questão está sendo amplamente estudada pela Biologia Molecular, que tem ajudado a desvendar esse enigma. É muito provável que se trate de uma doença poligênica, ou seja, dependente da ação de vários genes ao mesmo tempo.
Drauzio – A aterosclerose está sempre associada aos problemas cardiovasculares, especialmente ao infarto do miocárdio e aos derrames cerebrais?
Protásio Lemos da Luz – Às vezes não está. Imaginemos, por hipótese, um usuário de cocaína. Ele pode ter uma lesão da área interna da artéria e uma obstrução aguda sem ter desenvolvido o processo aterosclerótico clássico. Em geral, esses casos constituem uma exceção, pois a grande maioria dos infartos, anginas, morte súbita e acidentes vasculares cerebrais é produzida por aterosclerose.
Drauzio – O que uma pessoa deve valorizar em seu histórico familiar? Quem corre maior risco, o indivíduo cujo avô morreu de infarto aos 40 anos ou aquele que perdeu o irmão nas mesmas circunstâncias e com menos idade?
Protásio Lemos da Luz – O que se valoriza mais é a presença da doença precoce nos pais e irmãos, ou seja, nos parentes de primeiro grau. Considera-se precoce a doença que surge antes dos 65 anos de idade nos homens e quanto mais cedo ela ocorrer, mais importância tem a correspondência familiar. É claro que não se desconsideram casos em familiares mais distantes, porém repetitivos. Se todos os tios, por exemplo, morreram de infarto, é provável que o pai também tenha problemas cardiovasculares e, em algum momento, eles podem manifestar-se nos filhos.