Drauzio – Quais são as anomalias mais freqüentes que podem apresentar os genitais masculinos?
William Nahas – Nos últimos meses de vida intra-uterina, os testículos formados no interior do abdômen devem migrar para o escroto, seguindo uma rota que passa pelo canal inguinal. Quando essa migração fica comprometida por hérnias ou por anomalias na conformação do abdômen inferior e eles não alcançam a bolsa escrotal naturalmente, constitui-se uma afecção chamada de criptorquidia.
Drauzio – O que caracteriza a criptorquidia?
William Nahas – Cript é um radical grego que quer dizer escondido, e orquidia significa testículo. Criptorquidia, portanto, é um termo usado para designar uma anomalia na posição do testículo que pára no meio do caminho que deveria percorrer para chegar à bolsa escrotal. Essa alteração de percurso tem importância porque, para viabilizar a produção de espermatozóides, os testículos precisam estar um grau, um grau e meio abaixo da temperatura corpórea.
Para manter o equilíbrio térmico, o escroto é formado por várias camadas de musculatura que o ajudam a relaxar no calor, permitindo que os testículos se afastem do corpo, ou a contrair-se no frio para trazê-los para perto do corpo. Além disso, o cordão espermático por onde caminham as artérias que vão nutrir os testículos e as veias que drenam o sangue, está envolto pelo músculo cremaster que também se distende no calor e retrai-se no frio. Esse mecanismo que permite a aproximação ou o afastamento dos testículos do corpo é crucial para manter a temperatura adequada para a produção de espermatozóides.
Drauzio – Muitas vezes, no berçário, o pediatra nota que um dos testículos ou ambos ainda não migraram para a bolsa escrotal. Que significado isso tem?
William Nahas – Assim que a criança nasce é o momento ideal para verificar se ela tem ou não criptorquidia. Como o músculo cremaster, que participa do movimento de subida e descida dos testículos, é menos ativo nessa fase, o neonatologista pode perceber se eles estão bem locados dentro do escroto ou ausentes.
Às vezes, associada à criptorquidia, a criança apresenta também hidrocele, ou seja, o preenchimento do saquinho com um líquido que existe dentro do abdômen para permitir a movimentação das alças intestinais e escorre pelo caminho que o testículo deveria ter percorrido e ficou meio aberto.
Drauzio – Que conduta adotam os urologistas diante do diagnóstico de que um dos testículos ou os dois não migraram para a bolsa escrotal e a criança apresenta hidrocele?
William Nahas – Até o fim do primeiro ano de vida, os testículos podem migrar para o escroto e a hidrocele desaparece porque o canal de comunicação que permitiu a passagem do líquido abdominal se fecha. Por isso, a conduta inicial é observar como evolui o caso durante um ano, um ano e meio. No passado, aguardava-se até os cinco, seis anos para corrigir a anomalia, se ela persistisse. Atualmente, optou-se pela intervenção precoce para evitar prejuízo nas células que compõem o testículo e vão desenvolver a produção de espermatozóides e da testosterona, o hormônio masculino.
Drauzio – Quais os riscos de esperar mais tempo para que os testículos desçam espontaneamente?
William Nahas – O grande risco é expor os testículos à temperatura mais alta do interior do abdômen e provocar anomalias na produção de espermatozóides. A idéia é intervir precocemente para preservar a função germinativa, uma vez que a produção de testosterona não sofre tanto com a retenção intra-abdominal do testículo.
Drauzio – É preciso lembrar também a associação entre aumento da incidência de câncer dos testículos e o fato de terem permanecido por anos dentro da cavidade abdominal, ou nunca de lá terem sido retirados.
William Nahas – De fato, existe essa relação. A posição anômala do testículo associada às alterações de temperatura favorece o desenvolvimento de neoplasias, isto é, de tumores malignos. Por isso, quando o tratamento ocorre numa fase tardia, se houver dificuldade de levar o testículo até a bolsa escrotal onde é mais fácil ser examinado e acompanhado, o mais prudente é fazer a ablação para evitar riscos.
Drauzio – O que é ablação dos testículos?
William Nahas – Ablação dos testículos, ou orquiectomia, é a retirada dos testículos. Os leigos a chamam de castração, um termo muito pesado para defini-la.
Drauzio – Quais as possibilidades de correção da criptorquidia com que podemos contar atualmente?
William Nahas – O estímulo hormonal realizado com gonadotrofina coriônica (hCG) provoca o amadurecimento transitório e mais rápido do testículo, auxiliando a fase final de sua migração. Os resultados nem sempre são os desejados, e a mãe precisa ser avisada de que o pênis da criança pode crescer um pouco e sobre o possível aparecimento de penugem durante o uso da medicação, efeitos colaterais reversíveis depois que ela é suspensa.
Na maior dos casos, porém, sobretudo quando o problema é unilateral, a cirurgia é a melhor opção de tratamento para a criptorquidia.
Drauzio – Como se administra a gonadotrofina coriônica?
William Nahas – São três ou quatro injeções de hormônio em quantidades fracionadas para tentar promover a migração dos testículos.
Drauzio –Você poderia explicar qual a diferença existente entre a criptorquidia e o testículo retrátil?
William Nahas – O testículo retrátil é levado à bolsa escrotal, com facilidade, mas volta e fica alojado na região mais proximal da raiz dessa bolsa. Essa capacidade migratória é provocada pela hipertrofia ou funcionamento mais exacerbado do músculo cremaster, que puxa os testículos. Diferente do que acontece com a criptorquidia, o testículo retrátil não requer nenhuma espécie de intervenção. Os estímulos hormonais que começam a manifestar-se por volta dos sete, oito, dez anos, farão com que os testículos se fixem espontaneamente na bolsa.
Drauzio – Como é feita orquidopexia, ou seja, a cirurgia para corrigir a criptorquidia?
William Nahas – Através de um corte feito na região inguinal, isolam-se as artérias e veias, com o objetivo de liberar o testículo das aderências que se formaram dentro do abdômen a fim de permitir que o cordão espermático o conduza para a bolsa escrotal.