Dr. William Nahas é médico urologista. Professor livre-docente da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo e presidente do Departamento de Transplante Renal e Cirurgia Vascular da Associação Americana de Urologia, faz parte do corpo Clínico do Hospital das Clínicas da USP e do Hospital Sírio-Libanês (SP).
Drauzio – Além da criptorquidia e da fimose, que outros problemas podem acometer os genitais masculinos?
William Nahas – Um deles é a hidrocele. A bolsa escrotal contém um pouco de líquido que ajuda a lubrificar os testículos e facilita sua movimentação. Produção excessiva ou reabsorção insuficiente desse líquido fazem com que ele se acumule dentro da túnica vaginal (membrana que recobre o testículo) provocando crescimento da bolsa escrotal, em geral, lento, indolor e não associado a nenhum processo inflamatório. O tratamento da hidrocele é cirúrgico.
Outro problema é uma afecção testicular aguda chamada torção do testículo. É importante lembrar que os testículos originam-se na cavidade abdominal alta, ao lado dos rins e, nos meses finais da vida intra-uterina migram para a bolsa escrotal, onde devem fixar-se. Com eles, vão os vasos encarregados de nutri-los, também oriundos da região próxima dos rins. Também é bom lembrar que os testiculos são envolvidos pelo músculo cremaster cuja função é suspendê-los ou baixá-los de acordo com as condições de temperatura. Às vezes, por anomalia na fixação do testículo na bolsa escrotal, esse movimento de levantar e descer pode promover a torção do testículo em torno de seu próprio eixo, que é constituído por veias, artérias, cordão espermático, etc.
Drauzio – O que a pessoa sente quando isso acontece?
William Nahas – O primeiro sintoma é uma dor semelhante à dor do infarto, porque a torção provoca constrição da artéria que deveria nutrir o testículo afetado e a circulação sangüínea é interrompida. Essa dor é aguda e súbita, de forte intensidade, e associada a um processo inflamatório. Muitas vezes, as mães relatam que o filho acordou no meio da noite gritando de dor. Isso acontece em virtude das contrações musculares que ocorrem durante o sono. Numa delas, o cremaster puxa o testículo mal fixado, que roda, e a irrigação é suspensa. Assim como no infarto do miocárdio, que o sangue deixa de chegar pela artéria obstruída para nutrir o músculo cardíaco, a interrupção do fluxo de sangue provoca infarto do tecido testicular.
A torção do testículo é diferente das orquites (inflamação dos testículos por processo infeccioso), que começa devagarinho e a dor demora horas para chegar a seu limite máximo.
Drauzio – O que a mãe deve fazer quando o filho apresenta uma crise súbita de dor provocada pela torção do testículo?
William Nahas – Deve procurar imediatamente assistência médica, porque o tratamento precisa ser introduzido no máximo entre 4 e 6 horas depois do início da crise. Quase todos os prontos-socorros contam com aparelho de ultra-som com doppler que permite avaliar o fluxo sanguíneo e o pulso da artéria responsável pela irrigação do testículo. Esse exame é importante para o diagnóstico diferencial entre torção do testículo e orquite. No primeiro caso, a circulação sangüínea está interrompida, o processo de isquemia instalado e a indicação é cirúrgica. Já nas orquites, o fluxo de sangue está aumentado como resposta ao episódio inflamatório e/ou infeccioso e exige o uso de antiinflamatórios.