Drauzio – Como se caracteriza a doença de Alzheimer de forma a distingui-la de outras demências chamadas popularmente de esclerose?
Orestes Forlenza - É senso comum dizer que a pessoa ficou esclerosada quando perde algumas funções cerebrais. Mesmo médicos, que se formaram antes de se estabelecer a distinção e admitir que a doença de Alzheimer pode ter um início tardio, expressam-se desse modo.
No passado, a doença de Alzheimer era classificada como pré-senil. Acreditava-se que as formas senis não eram Alzheimer e sim doença vascular, portanto relacionadas ao processo de arteriosclerose. Hoje se sabe que ela é a principal causa de demência e corresponde a 50% de todos os casos. Os outros 50% são divididos por um contingente de pessoas com doença cerebrovascular e por aquelas que têm as duas coisas: doença vascular e os processos patológicos próprios da doença de Alzheimer.
Nas formas típicas, seu início é insidioso. Manifesta-se por perda gradual da memória. No entanto, o portador consegue compensar o déficit valendo-se de outras estratégias mentais, mas progressivamente vai perdendo essa função.
Drauzio – Esse início sutil pode ser confundido com a redução da memória que ocorre nas pessoas mais velhas? O que é natural para a idade e o que é patológico?
Orestes Forlenza – Aceita-se que o envelhecimento traga uma perda de certos processos ligados à memória, assim como traz para outros órgãos. Com a memória acontece a mesma redução gradual, mas a pessoa consegue compensar as perdas adequadamente, de tal forma que não se notam deficiências mais graves em seu funcionamento. Na doença de Alzheimer, entretanto, ocorre um déficit e um comprometimento adicional que leva à disfunção da capacidade cognitiva.
Drauzio – Você poderia dar um exemplo disso?
Orestes Forlenza – Depois dos 50 ou 60 anos, as pessoas começam a dar mais valor ao esquecimento como sintoma de uma doença. Grande parte das que têm a percepção de que a memória não vai bem está preocupada, deprimida, ansiosa, apresenta uma disfunção metabólica ou está tomando medicação que interfere na memória. Nesses casos, os esquecimentos são fortuitos, são para fatos não muito relevantes e está
mantida a capacidade de memorizar temas que considera importantes. Se ela se propõe memorizar, consegue. Já aquele que tem a doença, não consegue registrar a informação.
Isso pode ser ilustrado pela imagem 2 da estrutura cerebral que gerencia o processo de memorização. Essa estrutura chama-se hipocampo ou formação hipocampal. Funciona como se fosse um relê por onde passam informações e que determina como elas vão ser armazenadas. Danos nessa estrutura impedem que a informação seja registrada.
Para deixar mais claro, imagine um cérebro cortado ao meio, como aparece na imagem 3. Uma das metades corresponde ao cérebro de uma pessoa normal e a outra, ao de uma pessoa da mesma idade, mas com a doença de Alzheimer. Nesta, observa-se uma redução do volume causada pela atrofia da estruturas corticais (córtex é o manto, a parte superficial do cérebro), enquanto na outra, um cérebro normal, o hipocampo está preservado. Por isso, o doente não consegue arquivar as informações que recebe.