Drauzio – O fechamento
dos bares interferiu também no número de acidentes de
trânsito?
Ronaldo Laranjeira – Esse levantamento não
foi feito. Não foram monitorados os acidentes e trânsito
relacionados, de alguma forma, com a intoxicação por álcool.
E não é só em Diadema que isso acontece. Infelizmente,
no Brasil, não existem estatísticas precisas sobre o assunto.
Estima-se que 30.000 pessoas morram todos os anos em acidentes
de trânsito.
Agora, dizer quantas estavam intoxicadas pelo álcool ninguém,
nem o Departamento Nacional de Trânsito, é capaz de dizer.
O fechamento dos bares a partir das 23h mostrou que, de alguma
forma,
a violência foi controlada em Diadema. Agora, estão tentando
monitorar os casos de violência que ocorrem fora dos bares, e
muitos estão ligados ao beber e dirigir. Na verdade, essa é
a tendência da maior parte dos países que enfrenta problemas
em que há relação entre álcool e violência.
Por exemplo, na Inglaterra, ninguém mais discute que o aumento
do consumo de álcool nos últimos anos está diretamente
relacionado com o aumento da violência pública. Esse é
um dos muitos lados sombrios do consumo de álcool.
Drauzio – O
Código de Trânsito
brasileiro proíbe que a pessoa dirija embriagada, mas falta
fiscalização para punir os infratores. Nos países
em que leis como essa são respeitadas, o cidadão o faz
também por medo da repressão. Se o individuo tomar uns
goles a mais, for apanhado pela fiscalização e o bafômetro
indicar a presença de álcool, será levado para
a delegacia, fará exame de sangue e poderá ser preso.
No Brasil, a pessoa vai ao bar, enche a cara, pega o carro,
comete
barbaridades ao volante e sai impune. Você conhece alguém
que tenha sido punido por dirigir embriagado?
Ronaldo Laranjeira – Não conheço.
Tenho um número grande de pacientes com problemas de
alcoolismo
e nem mesmo assim conheço alguém que tenha passado pelo
teste do bafômetro e muito menos que tenha sido preso por
beber
e dirigir.
Não há dúvida de que a medida de educação
mais efetiva para as pessoas entenderem que não devem beber
quando vão dirigir é a percepção de que
podem passar pelo teste do bafômetro. Campanhas sobre os
danos
que podem causar a si mesmas e aos outros dirigindo
intoxicadas pelo
álcool não mudam seu comportamento. O que muda é
saber que correm o risco de serem pegas.
Se, por um lado, tal medida pode ser encarada como
repressão,
por outro, é altamente educativa, pois representa uma forma
de educar a sociedade para o ato de dirigir, que não
pressupõe
direito sem limites. Proibir a direção de um veículo
ao motorista intoxicado é uma restrição a esse
direito. Apesar disso, no Brasil, as pessoas acham que podem
dirigir
em quaisquer circunstâncias, mas, em outros países, beber
e dirigir é crime.
Drauzio
– Se considerarmos que pelo menos
30.000 pessoas morrem por ano como conseqüência de acidentes
automobilísticos, beber e dirigir é um crime recorrente
em nosso país.
Ronaldo Laranjeira – Embora esse número
represente uma subestimativa daquilo que de fato está
acontecendo,
revela que pelo menos cem pessoas morrem todos os dias em
conseqüência
de acidentes automobilísticos. Esse é o custo social
que pagamos por não ter uma política consistente, capaz
de evitar que as pessoas bebam e dirijam. Nos Estados
Unidos, por
exemplo, há quinze ou vinte anos, a sociedade mobilizou-se
para que tal comportamento não fosse mais aceito como
inócuo,
e houve uma queda de mais de 80% da mortalidade,
principalmente entre
os jovens.
O Brasil precisa adotar o mesmo critério, ou seja,
transformar
o beber e dirigir num crime que possa ser fiscalizado por
qualquer
guarda. Em todas as cidades, deveria existir um contingente
preparado
para fazer uso dos bafômetros como rotina, especialmente nos
finais de semana.
Drauzio –
E pensar que os bafômetros
utilizam tecnologia bastante simples e custam barato.
Ronaldo Laranjeira – São simples e baratos.
Com US$200, ou seja, R$500,00/R$600,00, compra-se um
bafômetro.
Se considerarmos o número de acidentados que lotam os
prontos-socorros
nas grandes cidades, nas sextas, sábados e domingos devido
ao beber e dirigir, e o custo social que isso gera, é uma
irresponsabilidade
não adotar o bafômetro como regra para diminuir
substancialmente
os casos de acidente. No Brasil, criou-se certa polêmica em
torno do fato de a pessoa não ser obrigada a soprar no
bafômetro,
o que é muito discutível. Mesmo assim, se o policial
desconfiar que o indivíduo está dirigindo intoxicado
e recusa-se a soprar no bafômetro, deverá levá-lo
à delegacia para avaliação médica.
Drauzio
– Como funcionam os bafômetros
em forma de lanterna?
Ronaldo Laranjeira - Esses aparelhos foram
desenvolvidos
nos Estados Unidos e funcionam, simultaneamente, como
lanterna e como
bafômetro. Quando o policial coloca a luz da lanterna no
rosto
do motorista, o bafômetro, que é muito sensível
e tem uma potente bomba de aspiração, capta o ar que
sai dos pulmões e imediatamente indica a quantidade de
álcool
em circulação no organismo. Se discordar da marcação,
dizendo que não está intoxicada, a pessoa poderá
soprar no bafômetro tradicional para comparar os resultados.