Hugo Hagström é técnico em publicidade. HIV positivo, viu a vida renascer depois do tratamento com o coquetel de drogas.
Drauzio – Na fase inicial do coquetel, o número de comprimidos tomados durante o dia era muito grande. Quantos você tomou e como se organizava para tomá-los todos os dias?
Hugo Hagström – Cheguei a tomar 32. Talvez minha preocupação em buscar a vida depois de tanto tempo pensando em morte, tenha colaborado para que conseguisse montar um esquema. Tudo tem de começar com nós mesmos. Não dá para atribuir nossas responsabilidades para os outros. O tratamento é meu, a vida é minha e sou eu quem precisa dominar tudo isso.
Outro fator importante para a adesão ao tratamento foi a ajuda dos grupos de adesão. Dentro dos centros de referência, o pessoal encarregado da saúde mental desenvolve um trabalho voltado para esse fim e ajuda a criar estratégias como montar planilhas e colocar relógios para despertar nas horas de tomar os remédios. No entanto, e acima de tudo, o que realmente funciona é a vontade que a pessoa tem de tratar-se e de melhorar.
Drauzio – Quantos comprimidos você toma hoje?
Hugo Hagström – Tomo 10 comprimidos de anti-retrovirais: cinco pela manhã e cinco à noite. Tomo também alguns outros medicamentos que não fazem parte do coquetel, às 10h da manhã e às 11h da noite.
Drauzio – Tomando tantos comprimidos por dia, você não se sente um homem biônico?
Hugo Hagström – Às vezes, até é bom sentir-se um homem biônico. Na verdade, embora acredite que tenha incorporado o ato automático de ingerir os medicamentos, a adesão ao tratamento tem de ser exercitada todos os dias. Conheço pessoas com nível de adesão razoável, que tomam os remédios com tanta raiva que deve ser ruim ingerir todos eles. Não sou cientista, mas acho que tal atitude pode diminuir a eficácia do tratamento.
Eu procurei mudar o olhar. Mesmo nos dias em que estou mais enjoado e é difícil ingeri-los, não os vejo como meus inimigos potenciais. Ao contrário, considero-os meus aliados na luta pela vida.
Drauzio – Certamente atrapalha a adesão ao tratamento fazer uma coisa que a pessoa detesta tanto.
Hugo Hagström – Claro que sim. Não é porque estou me posicionando dessa forma que considere fácil a adesão ao tratamento. Tenho conseguido construir isso na minha vida, mas a construção tem de ser diária.