Dr. Tito Paes de Barros Neto é médico psiquiatra. Supervisor do Ambulatório de Ansiedade (AMBAN) do Instituto de Psiquiatria do Hospital das Clínicas da Universidade de São Paulo e assistente do Hospital do Servidor Público Estadual de São Paulo, publicou o livro Sem medo de ter medo – um guia prático para ajudar pessoas com pânico, fobias, obsessões, compulsões e estresse (Ed. Casa do Psicólogo, 2000).
Drauzio – Barata é um inseto pelo qual a pessoas sentem aversão. Mulheres, especialmente, costumam ter medo de baratas. Algumas têm pavor e são capazes de atos arriscados para escapar de um ambiente onde haja uma barata. Qual a diferença entre uma reação aceitável diante de um estímulo aversivo e uma reação exagerada?
Tito Paes de Barros Neto – No caso da fobia de baratas, o interessante é que incide mais nas mulheres do que nos homens, na proporção de 8, 9 mulheres para cada homem. Há até um livro do Henfil, chamado ”Diário de uma Cucaracha“ em que existe a ilustração de uma barata no canto inferior direito da capa. Esse mesmo livro tem uma edição especial para mulheres, com uma tarja branca sobre a ilustração.
De certa forma, a aversão a baratas está cercada de certos comportamentos histriônicos, cômicos até. As pessoas têm nojo, acham o inseto horripilante, gritam, sobem nas cadeiras, saem correndo, mas tal reação nem sempre reflete o medo patológico próprio dos quadros fóbicos. Tive uma paciente com fobia de baratas que trabalhava com os pés em cima do cesto de papéis com medo de que uma barata subisse por suas pernas e revistava os ambientes à procura de orifícios por onde os insetos pudessem passar.
Drauzio – Que outros animais costumam provocar esse tipo de reação fóbica?
Tito Paes de Barros Neto – Em geral, cachorros, gatos e pássaros. Existem pessoas que evitam andar nas ruas com medo de que pombos esvoacem sobre elas.
Drauzio – Um pintinho recém-nascido foge apavorado se uma sombra de asas batendo incidir sobre ele. Não é um comportamento aprendido. O reflexo de fugir de objetos voadores ou de aves predatórias está geneticamente condicionado neles. Existe explicação genética para as sensações provocadas pelas crises de pânico?
Tito Paes de Barros Neto – É bem provável que exista na síndrome do pânico. A teoria é que, nesses casos, um falso alarme dispara sem razão e a pessoa reage como se tivesse um problema físico. Como numa bola de neve, os sintomas (aceleração do batimento cardíaco, tremor, respiração ofegante, sudorese, tontura) aumentam o medo e a intensidade da crise e ela se sente à beira de um infarto ou derrame.
O comportamento dos pintinhos faz lembrar que, no reino animal, o olhar do predador fixo sobre a presa é um sinal de perigo. O interessante é que o fóbico social também se sente acuado quando as pessoas olham para ele. Imagina estar sendo observado e avaliado, de preferência negativamente, o que aumenta o grau de ansiedade.