Drauzio – A perda da audição pode manifestar-se mais para sons agudos do que para graves, por exemplo?
Kátia de Almeida – Pode. No entanto, a configuração mais comum é a descendente, ou seja, a audição se mostra mais preservada para os sons graves e menos para os sons de alta freqüência (agudos). Mas o contrário também pode ocorrer ou, ainda, a pessoa pode ter uma configuração horizontalizada em que a audição dos graves e agudos está comprometida.
Drauzio – A perda da audição ocorre obrigatoriamente nas pessoas de mais idade?
Kátia de Almeida – Não é obrigatória como a presbiopia. Depende de fatores hereditários e de certas condições de vida, como exposição a ruídos, uso de medicamentos, etc. O que mais se observa, porém, é que o sistema auditivo também envelhece à medida que os anos passam. Hoje, são muitos os idosos com problemas de audição, especialmente quanto aos sons de alta freqüência, o que prejudica muito a inteligibilidade da fala. Embora os graves sejam conservados, eles ouvem, mas não compreendem o que foi falado.
Drauzio – Esse é o tipo de perda que obriga as pessoas a pedirem para os outros repetirem, a todo o momento, o que acabaram de dizer.
Kátia de Almeida – Exatamente. E elas não se dão conta de que não estão ouvindo direito. É comum dizerem: “Eu não estou surda, pois escuto todos os barulhos”. E escutam mesmo, porque a perda está situada nos sons de alta freqüência, nos sons da fala. Elas escutam, mas perdem a capacidade de discriminação, uma vez que o som deixa de ser percebido com nitidez.
Drauzio – Para elas parece que o interlocutor está falando um pouco baixo.
Kátia de Almeida – Não só um pouco baixo. A qualidade do som também deixa a desejar com o corte dos agudos.
Drauzio – Em geral, essas pessoas têm certo preconceito quanto ao uso de aparelhos de amplificação sonora.
Kátia de Almeida – O uso de aparelhos está cercado por um estigma. As pessoas imaginam que o fato de necessitarem um aparelho de amplificação sonora é sinal de que estão velhas e incapazes de desempenhar suas funções. Além disso, particularmente acho que essa rejeição ocorre porque a surdez é um mal invisível. Logo identificamos uma pessoa cega. A pessoa que não ouve é difícil de identificar, a não ser que esteja usando a libra, ou seja, a linguagem de sinais, ou um aparelho na orelha, embora eles sejam cada vez menores e mais discretos. Os aparelhos não são ouvidos novos porque não são capazes de fazer tudo que o sistema auditivo faz.
Costumo brincar com meus alunos que a maioria usa óculos, provavelmente sem precisar deles para enxergar. São óculos de grife, com modelos e cores atraentes. Aparelhos de amplificação sonora, a indústria faz da cor da pele e do menor tamanho possível, o que é complicado do ponto de vista da eletrônica. Apesar disso, as pessoas nem sempre aceitam usar um recurso tão bom para contornar a deficiência auditiva que é um distúrbio muito mais freqüente do que se pensa.
Drauzio – É comum o ponto eletrônico que usam os apresentadores da televisão, por exemplo, interferir na qualidade do som. Isso também acontece com os aparelhos auditivos?
Kátia de Almeida – Os aparelhos evoluíram muito e, atualmente, utilizam tecnologia digital. Seus fabricantes investem muito em pesquisa para que o som seja de alta qualidade, livre de interferências e distorções. Teoricamente, são capazes de amplificá-lo com a qualidade original que chegou ao microfone. Eventualmente, interferências podem acontecer, mas não é isso que se espera.