Drauzio - Além das vacinas BCG, contra a hepatite B, da tetravalente e da Sabin, a criança deve receber outras vacinas?
Gabriel Oselka - Nas regiões consideradas endêemicas, ou seja, onde a doença existe e ocorre sistematicamente (regiões Centro-Oeste e Norte, no Estado de Minas Gerais e em algumas poucas localidades de outros estados brasileiros), a recomendação é fazer a vacina contra a febre amarela a partir dos nove meses de idade. Em alguns lugares, ela é feita quando a criança tem por volta de um ano. Embora se acredite que a proteção seja de mais longa dura, recomenda-se que a vacina contra a febre amarela seja repetida a cada dez anos.
Faz parte também do programa de vacinação infantil uma vacina combinada contra sarampo, caxumba e rubéola, importante não só por sua eficácia, mas também pela gravidade das doenças que pretende proteger, particularmente o sarampo que até alguns anos atrás era o principal agente infeccioso causador de mortes em crianças. Essa doença está tão controlada que as gerações mais jovens, num futuro próximo, talvez nem saibam que doença é essa nem os danos que pode causar.
Drauzio - Não faz muito tempo, o sarampo era considerado uma doença banal que acometia as crianças.
Gabriel Oselka - Era considerada banal, embora seja potencialmente uma doença muito grave a ponto de, não faz muito tempo, ser a principal causa de morte nas crianças brasileiras, o que acontece ainda hoje em muitas regiões do mundo. No Brasil, a vacinação contra o sarampo conseguiu um resultado extraordinário. Desde o ano 2000, não há registro de casos da doença adquirida no país. Os pouquíssimos que existem foram adquiridos no exterior. Se me dissessem, há dez anos, que isso iria acontecer, eu não acreditaria.
Drauzio - Na minha geração, sarampo era uma doença praticamente obrigatória para as crianças.
Gabriel Oselka - A doença é tão contagiosa - essa é uma das características do sarampo - que era praticamente certo que a criança teria sarampo antes de chegar à puberdade.
Drauzio - Você acha que vamos eliminar o sarampo do cenário nacional com esse programa de vacinação?
Gabriel Oselka - Acredito que sim. O sarampo tem uma característica que permite sua eliminação. Ele só acomete seres humanos, ou seja, não existem reservatórios em animais ou na natureza que abriguem o agente infeccioso. Isso significa que, se conseguirmos proteger as pessoas, a doença poderá ser erradicada. Foi o que aconteceu com a varíola e está acontecendo com a poliomelite no Brasil. Nas Américas, o controle do sarampo é muito adequado e, embora existam muitos casos no mundo, acredito que será possível controlá-lo completamente.
Drauzio - Em que idade deve ser administrada a vacina contra sarampo, rubeola e caxumba?
Gabriel Oselka - A partir de um ano de idade. Em 2003, o Ministério da Saúde recomendou que a segunda, e última dose, fosse dada por volta dos cinco anos, ou um pouco antes, para garantir que as pouquíssimas crianças que não se protegeram com a primeira dose tenham uma segunda chance para defender-se contra essas doenças. Essa decisão foi tomada porque ainda não existe vacina que seja totalmente eficaz. Embora estejamos muito perto de consegui-la, não há garantia absoluta de que a pessoa vacinada não contraia a doença se entrar em contato com o micróbio causador da enfermidade.