Drauzio – Quais são as vacinas mais importantes depois dos 60 anos?
João Silva de Mendonça – Essa é a faixa etária de pessoas que certamente não tomaram vacina contra tétano na infância e que devem fazer o esquema básico de vacinação ou, se já foram vacinadas, fazer o reforço a cada dez anos. É bom pensar que esse pode ser um momento de risco para os idosos. Eles se aposentam e começam a dedicar-se a algumas tarefas que lhes dão prazer, a jardinagem, por exemplo. Cuidando de uma roseira, correm o risco de contrair a doença se ferirem a mão suja de terra nos espinhos ou nas ferramentas de jardim.
Drauzio – Eles devem tomar também a vacina contra a hepatite B?
João Silva de Mendonça – Eu diria que a vacina contra a hepatite B fica para segundo plano nessa faixa etária e passam a ter importância duas outras vacinas: a da gripe e a preventiva de pneumococos, popularmente chamada vacina da pneumonia.
Drauzio – Vamos começar falando da vacina da pneumonia.
João Silva de Mendonça – A pneumonia, em particular a pneumonia pneumocócica acima dos 75, 80 anos, é uma das primeiras causas de mortalidade. A vacina contra a pneumonia é uma vacina contra o pneumococos, o mais comum dos germes que causa a doença. Melhor dizendo, ela cobre 23 dos 90 pneumococos, os 23 mais comuns. Sobre essa vacina, há um aspecto que merece ser destacado. Ela pode até falhar como prevenção da pneumonia por pneumococos, mas tem importante ação redutora do risco de disseminação dessa bactéria no corpo do doente. Tecnicamente esse quadro recebe o nome de bacteremia, e pode evoluir para outro mais grave, a septicemia. Pois bem, mesmo quando falha, essa vacina reduz muito o risco de que o pneumococo saia da pulmão, caia no sangue e circule pelo corpo inteiro da pessoa, aumentando consideravelmente a probabilidade de morte.
Drauzio – Essa vacina é indicada a partir de que idade?
João Silva de Mendonça – No Brasil, essa vacina é indicada a partir dos 60 anos e nos Estados Unidos, aos 50, 55 anos. Alguns países, porém, optam por ministrá-la aos 65 anos.
Drauzio – O esquema de vacinação é complicado?
João Silva de Mendonça – Não, é bastante simples. É uma dose única que deve ser reforçada cinco anos depois. Atualmente começam a aparecer evidências de que vale a pena uma segunda dose de reforço dez anos depois da primeira ou cinco anos depois da segunda.
Drauzio – A vacina da gripe está cercada de dúvidas sobre sua eficácia. Muitas pessoas hesitam
em tomá-la.
João Silva de Mendonça – A vacina da gripe tem muitas particularidades interessantes e está cercada de mitos favoráveis e desfavoráveis também. Primeiro, é útil saber que a gripe é causada pelo vírus da influenza e nada tem a ver com o resfriado comum. A confusão na hora de nomear as duas doenças ocorre até entre os médicos e não há brasileiro que não diga que está gripado, quando dá alguns espirros, tem coriza, garganta arranhando e febre de 37,5º. Na verdade, isso não é gripe, é resfriado. A gripe é uma doença de maior porte e intensidade, com risco de complicações e, eventualmente, de morte. Gripe é doença séria. Veja o surto epidêmico que está acontecendo neste inverno nos Estados Unidos. No mês de dezembro, a cada 100 pessoas mortas no país, 9 tinham morrido por causa da gripe ou por complicações que dela advieram. A vacina da gripe é tida como vacina que falha. Dois dias depois de ter tomado a vacina, a pessoa diz que apanhou a maior gripe da vida e que nunca mais vai tomar outra dose. Esse é o primeiro mito a ser desfeito. A vacina da gripe não dá gripe em hipótese nenhuma, porque não tem o vírus vivo. Entretanto, é freqüente a pessoa tomar a vacina em plena estação sazonal da doença. O colega, o vizinho, os familiares estão com gripe e, com medo de ficar doente, ela toma a vacina quando já estava incubando o vírus da doença. Essa vacina pode falhar, mas mesmo quando falha, e no idoso falha mais do que no jovem adulto, reduz em um terço a necessidade de hospitalização e em 50% o risco de morte. Ou seja, a doença vem mais atenuada, menos intensa.
Drauzio – Como deve ser administrada essa vacina?
João Silva de Mendonça – A proteção da vacina da gripe é melhor nos primeiros seis meses. Depois, sua eficácia decresce progressivamente e ao cabo de um ano praticamente perdeu seu efeito. Essa é uma das razões que justificam sua renovação anual. A outra diz respeito à composição da vacina. Ela sempre protege contra três vírus gripais que estão em constante mutação. Quando aparece um vírus novo, a vacina precisa ser atualizada. Entra o vírus novo na fórmula da vacina, sai geralmente o mais antigo e a vacina continua sendo trivalente. O exemplo do que está ocorrendo nos Estados Unidos neste inverno de 2004 é muito interessante. Quando a vacina foi fabricada, meses e meses atrás, o vírus novo não tinha se manifestado e, conseqüentemente, não foi incorporado na vacina. Portanto, os americanos tomaram uma vacina em que faltava um componente para enfrentar o vírus novo, o principal causador da gripe, uma vez que 70% dos casos foram causados por ele. No entanto, a geração de vacinas que estamos recebendo para ser aplicada no Brasil já contempla esse vírus novo, pois deu tempo de colocá-lo na composição das doses que serão distribuídas este ano.
Drauzio – Qual a época do ano ideal para tomar a vacina da gripe?
João Silva de Mendonça - No Brasil, o primeiro quadrimestre do ano, ou seja, de janeiro a abril, meses que antecedem o inverno, estação em que a transmissão do vírus é maior, porque as pessoas ficam contidas em ambientes mal ventilados e propícios para a transmissão do vírus.
Drauzio – Que complicações a vacina da gripe pode provocar?
João Silva de Mendonça – As complicações são pouco freqüentes. Estatisticamente, a taxa de reação está por volta de 1% a 2%. O mais comum são reações tranqüilas, um pouco de dor muscular no corpo, pequena prostração, raramente uma febrícula e, em um ou dois dias, os sintomas desaparecem.