Drauzio – Nós sempre sonhamos com acontecimentos ligados ao nosso dia-a-dia?
Flávio Alóe – Não necessariamente. Uma pessoa submetida a um trauma, estresse, a um assalto ou perda violenta de um ente querido pode reverberar esse acontecimento sob forma de sonho durante meses ou anos a ponto até de ele tornar-se um transtorno de ansiedade, ou pode não sonhar nada que se refira a esse acontecimento específico. De qualquer forma, quanto mais robusta e traumática a informação, maior probabilidade de ser incorporada ao universo dos sonhos por determinado período.
Drauzio – Qual a explicação para acordamos assustados no meio de um pesadelo?
Flávio Alóe – O pesadelo pressupõe a ativação do sistema nervoso autonômico simultaneamente com o conteúdo de um sonho desagradável para aquela pessoa em particular, porque o que é considerado pesadelo para uns deixa de sê-lo para outros. Não é o sistema nervoso atuante, mas a carga emocional que faz acordar. O pesadelo pode surgir de um estímulo neutro sem a menor relação com o que aconteceu durante o dia ou pode ser recorrência de um fato traumático já vivido. Normalmente, a pessoa que tem um pesadelo desperta suando, com freqüência cardíaca acelerada e sensação de angústia.
Drauzio – Por que a pessoa acorda quando tem um pesadelo e não acorda quando o sonho é tranqüilo?
Flávio Alóe - Se a pessoa sonhar que está sendo assaltada, a carga de emoção negativa é exatamente igual à que sentiria se o fato estivesse acontecendo realmente naquele momento. Como conseqüência, o sistema nervoso autonômico sofre certo nível de ativação que provoca alterações orgânicas responsáveis pelo despertar no meio do pesadelo.
Drauzio – As crianças têm mais pesadelos do que os adultos?
Flávio Alóe – Os pesadelos são mais comuns nas meninas, nas mulheres em idade adulta, seguidas das mulheres de terceira idade e menos prevalentes nos idosos do sexo masculino. Não existem estudos a respeito dessa distribuição. Talvez haja alguma intercorrência da personalidade feminina ou de seu perfil hormonal.
Crianças talvez tenham mais pesadelos porque sua capacidade de absorver acontecimentos negativos é limitada pela falta de experiência e maleabilidade de comportamento.
Drauzio – Você sonha com a morte dos outros e pode até acordar chorando por causa disso, mas nunca conheci alguém que tivesse sonhado com a própria morte. Por que isso acontece?
Flávio Alóe – Não sei dizer. Realmente nunca ouvi falar de alguém que tenha sonhado com a própria morte. Acredito que não haja circuitaria neuronal com memória para esse tipo de experiência, porque se morre uma única vez. Não existe esse bit de memória no nosso cérebro.
Drauzio - Existe um sonho freqüente em que a pessoa se vê numa situação de perigo, quer gritar e pedir socorro, mas sua voz não sai de jeito nenhum? Por quê?
Flávio Alóe – Não tenho uma explicação clara para esse fenômeno. Sei que existe um transtorno do sono chamado transtorno comportamental do sono REM que provoca uma reação completamente diferente dessa que foi descrita. Ao contrário da fisiologia normal que prevê o corpo paralisado e a musculatura ativamente inibida durante o sono, as pessoas com esse distúrbio, em geral homens na terceira idade, fazem exatamente o que estão sonhando e passam por períodos alternados de imobilidade e movimento. Estão ativas, se no sonho lutam contra um inimigo, e absolutamente paralisadas, se caíram n’água gelada ou na areia movediça. Provavelmente, no caso que você citou, exista um comando para a pessoa movimentar-se e fugir da situação de perigo, mas a musculatura ativamente inibida não reage e o sonho pode refletir o que está acontecendo com seu sistema motor naquele momento.