Dr. Maurício Bagnato é médico pneumologista, trabalha no Laboratório do Sono da Universidade Federal de São Paulo e no Laboratório do Sono do Hospital Sírio-Libanês.
Drauzio – Vamos fazer um resumo do que você disse porque é uma informação de grande importância. É considerado normal o ronco discreto, um ressonar suave, principalmente quando a pessoa dorme de barriga para cima, pois a língua cai um pouco para trás. O ronco ruidoso mostra que a passagem está ligeiramente fechada e o ar entra em reverberação. Quando a parede dessa passagem colaba, a pessoa pára de respirar e apresenta a apnéia do sono. O que leva a tudo isso?
Maurício Bagnato – Alguns fatores contribuem para o aparecimento do ronco: amídalas e adenóides muito grandes, tumores, desvio de septo, hipertrofia dos cornetos, pólipos nasais, etc. Diversas patologias provocam a obstrução crônica do nariz e a pessoa respira pela boca. Mesmo obstruções menores podem obrigá-la a respirar por essa via alternada, o que sempre representa alternativa ruim.
De maneira geral, dormir de lado favorece a respiração nasal. Quando o indivíduo deita de barriga para cima, a tendência é abrir um pouco a cavidade oral e a mandíbula desloca-se para baixo e para trás, pressionando a faringe, e a língua cai de lado. Isso facilita a ocorrência do ronco. Algumas pessoas têm, ainda, o queixo projetado um pouco para trás, o que faz recuar também a base da língua.
Vamos supor, então, um paciente que tenha o costume de dormir de barriga para cima e com a boca aberta porque tem algum problema no nariz e o queixo um pouco projetado para trás. Como existe sinergismo entre esses fatores, a soma dos três é igual a quatro porque eles se potencializam entre si e o paciente apresenta tendência maior ao estreitamento da faringe.
Drauzio – Existem outros fatores que devam ser mencionados?
Maurício Bagnato – O álcool, por exemplo, tem a propriedade de relaxar o músculo da faringe. Medicamentos à base de diazepínicos também relaxam a musculatura. Daí, o paciente vai ao médico que lhe prescreve um desses medicamentos para que durma melhor e o quadro se agrava porque a faringe já relaxa naturalmente à noite.
A obesidade é outro fator a considerar. Infelizmente, essa região em que podem concentrar-se vários problemas (relaxamento da musculatura, amídalas grandes, recuo da base da língua agravado pela posição do queixo, respiração bucal) também é passível de infiltração gordurosa que aumenta a obstrução da faringe. A natureza não preparou o ser humano para ser obeso. O excesso de peso interfere negativamente sobre o ronco.
Além desses, refluxo gastroesofágico, que ocorre mais facilmente à noite, tabagismo e álcool podem irritar a faringe, provocar inchaço e conseqüentemente aumentar a incidência de ronco.