Drauzio – Quem procura mais o médico: o paciente que ronca ou o cônjuge?
Maurício Bagnato – Em geral, é o cônjuge. Muitos dos grandes roncadores apnéicos, que chegam a fechar completamente a faringe, não percebem o que está acontecendo. Então, os cônjuges os arrastam para o consultório médico. Alguns, porém, se conscientizam do problema porque ouvem o próprio ronco e vão sozinhos. O que mais assusta esses pacientes é a apnéia que os faz despertar sufocados.
Muitas esposas dizem – “olhe, meu marido pára de roncar quando eu o cutuco, vira de lado, mas logo depois volta a roncar”. Na verdade, no momento em que a esposa o estimula para virar-se, ele acorda e há uma reativação da musculatura da faringe, o que facilita a passagem do ar. No entanto, quando adormece de novo, a faringe relaxa e ele volta a roncar.
Nos casos de apnéia, ele pode acordar por si mesmo porque além da força que faz para respirar, a hipoxemia alerta o cérebro sobre a falta de oxigênio.
A esposa relata que o marido pára de respirar e acorda sufocado, mas ele não se lembra desses microdespertares. E não estou falando de 20 episódios por noite. Estou me referindo a 400, 800 microdespertares por noite. Por incrível que pareça, quando se pergunta como esse paciente dormiu à noite, ele responde: “dormi como uma pedra, doutor, não acordei nenhuma vez”.
Drauzio – O ronco gera muitos desajustes?
Maurício Bagnato – Muitos pacientes acabam procurando um psiquiatra antes de consultarem um pneumologista ou um médico especialista em sono, porque se sentem tristes, deprimidos e ansiosos durante o dia.
Isso acontece porque os incontáveis microdespertares fazem com que seu sono, em vez de profundo e consolidado, seja superficial e multifragmentado e o tributo pago no dia seguinte é pesadíssimo. Além da sonolência, o paciente apresenta déficit cognitivo, memória e concentração comprometidas, impaciência e irritabilidade. Resultado: começa a produzir menos no trabalho e, muitas vezes, perde o emprego. Em casa, os conflitos são evidentes e sua vida se deteriora. Muitos casais acabam até se separando por causa do ronco.
Drauzio – Quer dizer que a apnéia não é simplesmente a falta transitória de oxigênio. Ela pode ter conseqüências perversas.
Maurício Bagnato – Perversas principalmente na parte cardíaca. Nosso corpo inteiro foi desenhado para receber uma quantidade determinada de oxigênio. Se o sangue estiver mais empobrecido, é claro que haverá um déficit disseminado pelas células do corpo. O problema maior ocorre com o coração, o grande consumidor de oxigênio e órgão que mais sofre a curto e médio prazo.
Drauzio – Qual foi o pior caso que você encontrou?
Maurício Bagnato – A história mais curiosa é a de um paciente que roncava tanto que foi expulso de dentro de casa porque a família e a vizinhança não mais agüentavam seu ronco. Foi dormir na edícula e dessa vez foi o cachorro que se ressentiu: não liga mais para o dono porque não suporta tamanho ruído. Pode parecer paranóia, mas ele acha que o ronco o fez perder a amizade do cachorro.
Drauzio – Como vocês conduzem o caso de um paciente que diz que a família se queixa do seu ronco?
Maurício Bagnato – Na abordagem inicial, levanta-se a história do paciente. Vale sempre a pena ter por perto uma testemunha, geralmente a esposa ou um filho, porque na maioria das vezes o paciente não tem consciência do próprio problema. Depois, parte-se para um exame físico cuidadoso. Muitos têm a mandíbula posicionada um pouco para trás; outros, o nariz obstruído ou semi-obstruído o que provoca dificuldade respiratória nasal plena durante a noite e eles respiram pela boca. Além disso, pessoas com pescoço mais grosso e mais curto roncam mais do que aquelas que possuem pescoço mais fino e mais comprido.
Drauzio – Quem ronca mais, o homem ou a mulher?
Maurício Bagnato – Um trabalho nosso publicado em 1995, na verdade, a única estatística brasileira existente sobre o ronco, mostra que antes dos 40 anos de idade, 26% dos homens e 9% das mulheres roncam. Depois dos 40 anos, porém, não se sabe se por influência da menopausa ou do aumento de peso corpóreo, o número de mulheres quase triplica e passa para 26%, não muito distante do número de homens que atinge os 36%.